Cola cum Fróis

Escrevo pela necessidade de me livrar das palavras | @_dudufrois

domingo, 23 de dezembro de 2018

Tirando o doce da criança

Entre a Ilha da Magia e o Mundo Mágico de Oz


Mateus acordou no feriado de 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, com disposição e uma vontade de não ficar em casa. Para impulsionar a venda de brinquedos e despertar o desejo de consumo nos pequenos, foi instituído também que 12 de outubro é o dia das crianças. Mateus nunca teve o presente que queria. Apesar de não se enxergar mais como uma criança, o menino de 15 anos queria viver um dia diferente da realidade da sua quebrada, um dia especial. Avisou a mãe dizendo que talvez dormisse na casa de um amigo e saiu do alto da Caieira do Saco dos Limões rumo à UFSC, para encontrar Aldair e pegar o skate que tinha conseguido emprestado.


O plano dos caras era reunir geral que tinha confirmado de acampar, partir rumo a Lagoinha do Leste no início da tarde da quinta-feira e ficar por lá até domingo. Mateus nem sabia do combinado. Curtiu a ideia e foi no embalo. Deixou o skate no centro acadêmico de jornalismo e se juntou ao grupo de estudantes que esperava o ônibus para o Rio Tavares. De lá, outro latão até o Pântano do Sul, onde começa a trilha de 2,3 km. Cada um levava consigo uma barraca, e Mateus, o menor da turma, ia carregando as compras feitas no mercadinho.


O caminho estava todo enlameado por conta das chuvas da semana. Mas nada que nos tirasse a empolgação. O moleque ia fazendo a trilha cantando e marcando o ritmo de funk na palma da mão, alternando as batidas: graves com a mão fechada e as agudas com a mão aberta… “E aê, / boca de pelo, / Tu ta pegano a mina que mamou o bonde inteiro”


É o refrão grudento da música dos mc’s Don Juan e Gudan. Mateus, um ano mais novo do que Don Juan, admira o funkeiro e admite que sonha em se tornar um mc reconhecido. Ele frequenta as batalhas de rap que rolam em Florianópolis, mas nunca se inscreveu pra rimar. Ele prefere mesmo o batidão do funk. E logo emenda outra música de putaria no repertório da trilha. Sua mente é rápida, já lança um som após o outro. Vai dos sucessos mais atuais, até as letras do finado mc Daleste. Às vezes, dá uma pausa no funk para cantar alguma do Sabotage ou dos Racionais Mc’s. E quando nenhuma música mais lhe vem à cabeça ele volta para a famigerada ‘boca de pelo’.


Ao chegarem na praia e levantarem acampamento, a rapaziada se dividiu no preparo da comida. Uns foram na caça de madeira, outros buscar água... Acabamos conhecendo outro grupo de amigos acampados ali perto que emprestou panelas e talheres. No cair da noite, eles se juntaram em volta da fogueira para comer, beber, fumar e cantar canções acompanhados do violão. “Na roda da função, mó zueira, tomando vinho seco em volta da fogueira, a noite inteira só contando história, sobre o crime, sobre as tretas na escola…”. Mas é claro que depois tudo virou funk.


Na manhã do dia seguinte Mateus despertou e logo acordou geral. “A gente tá no paraíso!” E saiu correndo pela areia da praia para contemplar os primeiros raios de sol. Ele nasceu no Rio de Janeiro e foi criado em Florianópolis com a mãe e os irmãos. Já estava com saudades do calor, dos dias de verão. Depois que todos fizeram a primeira refeição, perceberam que iriam precisar de mais alimentos. Até porque ainda estavam vindo mais cinco pessoas para se juntar ao acampamento. A solução era fazer a trilha até o Pântano do Sul e voltar ao mercadinho para reabastecer o estoque de mantimentos da galera.


No caminho, durante a trilha, além de cantar os funks, Mateus também contou da vez que foi pego no mercadinho do Campeche com chocolate e chiclete nos bolsos. O segurança o abordou na saída, o conduziu até uma salinha no andar de cima e pediu para que devolvesse a mercadoria furtada. O guri mostrou uma nota de dois reais dizendo que pretendia pagar. O segurança ficou ainda mais bravo e chamou outro, à paisana e armado. Os dois ameaçaram quebrar o moleque caso não devolvesse tudo. Mateus esvaziou os bolsos e os caras ainda quiseram ligar para sua mãe, dar lição de moral e talvez até botar a culpa na criação dela. Ele saiu do mercadinho sem nada, mas tranquilo porque também não precisou assinar nada.


Em sua visão aquilo não foi errado. Se ele tá com vontade e tem de monte na prateleira, a fácil alcance, ué, por que não pegar? O dono dali ganha um dinheiro alto todo dia mesmo. Se o garoto fosse rico e branco, diriam até que é um cleptomaníaco. Errado ele diz que são os que roubam bolsa de mulher, os que tiram coisas dos outros usando a violência. Isso ele não faz. Detesta brigas. Rouba no mercado pois não tem condição de pagar, mas se tem, não pensa duas vezes em esbanjar e gastar o dinheiro todo. Mateus não bebe, mas diz ser viciado em doces. Fuma só Gudang Garam e maconha. Dessa vez ele não precisou esconder nada dos funcionários. Conseguiu comprar um iogurte, graças à vaquinha coletiva dos acampados. E, claro, ajudou seus colegas a trazer o restante das compras.


O guri já é bem grandinho, com quase 1,70m. Para muitos, nem aparenta ser menor de idade. Quando o encontrei na praia ele falava de mulher. Disse-me que ali tava em falta, que só tinha macho. Que Juliana, a gaúcha que chegou no mesmo dia que eu, era uma ‘delicinha’. Até apelidou ela de Xuliana, por causa de uma música do Mc Lan que ele passou a cantar e bater palma. Dei risada e fui com o menino procurar lenha para a fogueira da noite. A chuva ameaçava cair. Dava uma pancada e depois parava. Tivemos que improvisar uma lona para cobrir a madeira e não deixar que ela molhasse. Minha barraca então, sem proteção, já estava encharcada. Mateus me disse que tinha espaço na barraca em que eles estavam dormindo.


Depois do jantar dormimos em quatro, três no colchão de ar, um direto na areia. Ao invés de histórias de terror, Mateus foi contando as vezes em que tinha sido pego, que tinha se dado mal. E ele contava tudo rindo, na maior naturalidade de quem não se vê fazendo mal a ninguém. No último dia na mata Mateus só dizia estar com saudades de andar de skate. Junto com Daniel, marcou de passar em casa assim que chegar no centro e já descer para andar no bowl da pistinha da Costeira. Ele tinha até se esquecido que o skate estava na UFSC.




Subimos até o morro da Coroa e quem tinha bateria no celular bateu a famosa foto lá de cima. Eu e o menor fomos descendo na frente. Ele não quis entrar no mar. Talvez não soubesse nadar. Talvez quisesse mesmo ficar fumando na beira da praia, só observando o quebrar das ondas no mar, sentir a brisa no rosto, conversar com outras pessoas... Dali, reencontramos o grupo para desmontar o acampamento e voltarmos para babilônia antes que anoitecesse.


No dia seguinte, segunda-feira, já no estressante ambiente urbano, dentro do campus da UFSC, um segurança veio questionar a presença de Mateus e seu skate ali. Ele disse que não ia parar de andar, nem de frequentar a universidade. Que tinha amigos ali dentro. O segurança se retirou. Foi chamar reforço. Enquanto isso uma menina pediu para andar no carrinho. Quando a caminhonete da Deseg chegou e desceram dois caras de óculos escuros e coletes já era tarde para esconder o skate no CALJ. Os dois seguranças viram a cena, foram até o local e confiscaram o objeto do moleque naquela enorme caminhonete branca. Mateusinho ia falar o que? Para eles foi como tirar doce da boca de uma criança.


No outro dia encontrei o garoto no CALJ, meio abatido, que me contou a história. Tava com a blusa laranja que eu lhe dei no acampamento. Só que o abatimento logo passou quando ele viu que eu carregava no braço um capacete de motocicleta. Mateus pediu o objeto da minha mão e começou a fazer várias perguntas a respeito de minha humilde Honda CG de 150 cilindradas. Disse também que era dia de Batalha da Central, no Campeche, que já tava quase na hora, que não ia dar tempo se fosse de ônibus e me pediu uma carona. Usei a famosa desculpa de estar sem mais um capacete. Mas o moleque não desiste fácil das coisas que quer. Com a certeza de quem acredita nos encontros do universo, ele disse que ia arranjar um capacete e só falou pra eu vir com ele.


Sem saber direito o que ele iria fazer eu fui seguindo-o pela universidade. E pra piorar, aquele horário da noite eu já não conhecia ninguém que viesse de moto. “Ah, tem o Van Diesel ali do Básico!” A gente foi lá e ele chamou o menor de azarado, que semana passada o rapaz tinha esquecido um capacete em cima de uma mesa e só tinha vindo buscar ontem. Mateus não gostou do adjetivo que lhe foi dado, assim como não gosta de ser chamado de menor. Virou pra mim e disse: onde tá sua moto, feio? Vamo lá!


A gente foi caminhando até o CDS, no caminho apenas carros e pedestres. Eu vinha lhe dizendo que se houvesse alguém que só um trabalhador noturno nos emprestaria um capacete aquele horário. Ele abordou um guardinha de amarelo, que disse não ter moto, nem saber de alguém que tenha, mas se mostrou curioso com a história. Vimos que ele também não nos ajudaria, até que passamos pelo centro acadêmico de educação física, onde rolava uma reunião dos professores de atletismo, no piso superior. Subimos e ficando olhando para as pessoas até que elas nos notassem.


Vinha vindo em nossa direção uma moça. Explicamos para ela a história de ir até o Campeche de moto. Só omitimos a parte da batalha. Ela chamou outra moça, com um capacete nos braços, que chegou dizendo estar de saída. Eu confesso que nesse momento já tinha perdido as expectativas, mas o Mateus não, e foi desenrolando com a moça até ela chamar o namorado. Contamos a história para ele também, que dá aulas a crianças e adolescentes na pista de atletismo. Ele abraçou a ideia, confessou ter outro capacete no baú da moto e de quebra chamou Mateus para treinar com ele. O menor só pegou o objeto emprestado e agradeceu. Eu disse que em uma hora estaria de volta ali para devolver o capacete.


Quando chegamos até a moto, estacionada próxima da saída de pedestres do Pantanal, fomos abordados por outros dois guardinhas de amarelo, que nos fizeram várias perguntas e justificaram a abordagem porque éramos ‘suspeitos’. Ficaram ali até a gente sair. No caminho, antes de chegarmos na via Expressa Sul, ele veio me contando que sabia pilotar. Depois, passou a cantar os funks. Chegando no Campeche, insistiu para conduzir. Eu neguei, falei da polícia, que a moto tava com a bateria fraca, que a gente tava quase chegando…


A batalha de conhecimento já estava nas semi-finais quando a gente parou ali, nem dava mais tempo de se inscrever. Ele comprimentou os conhecidos e já foi logo pedindo pros caras uma moeda pro gudang’zin. Ao conseguir R$1,50 a gente foi até a venda, ascendeu e, antes que o cigarro chegasse no filtro, ele me fez um pedido que me deixou desconcertado: pilotar a moto no caminho de terra batida que tem atrás da pracinha onde rolava a batalha de rap.


Perguntei se ele sabia ligar no pé. Ele já subiu e foi tentando. Ligou. Nem precisou do afogador. Acelerou no neutro, olhou pra mim, botou em primeira marcha e partiu. Passou pra segunda. Lá na frente, pra terceira e voltou. Pediu pra andar na pista. Eu neguei, é claro. Argumentei lembrando-lhe de ter um posto policial bem ao lado. Mateus queria brincar um pouco mais nesse brinquedo de gente adulta. Foi até o fim da estradinha e deixou morrer a moto. Penou pra ligar, mas ligou. Veio vindo devagarinho, estacionou onde estava e falou: “bora ver a batalha, feio!”


A final de conhecimento rolou e quem ganhou foi uma mina. Colocaram um som pra tocar, eu olhei a hora e lembrei do cara que emprestou o capacete pra gente. Já ia dar uma hora. Perguntei ao Mateus se ele ficaria pra batalha de sangue. Não. Vamos embora. Na saída ele pediu pra levar de novo. Eu pensei duas vezes e disse para ele que se fossemos pegos a moto iria pro pátio e quem ia se foder era eu. Que não ia ter dinheiro pra tirar, pagar o guincho, essas coisas. Ele não gostou muito, mas foi atrás cantando as músicas do mc Rodson enquanto eu pilotava e fazia a batida de funk com a mão esquerda no tanque de gasolina.


O farol apagou, mas o caminho do Rio Tavares é bem iluminado. Tranquilo. Minha lanterna devia estar funcionando apenas uma fase. Levantei a viseira para enxergar melhor as duas pistas. O ruim são as tartaruguinhas que limitam a mudança de faixa. Permaneci na direita quando vi uma viatura da polícia toda apagada na esquina, pronta para virar. Diminuí a velocidade. Na lombada, passei o carro da frente enquanto o menor me dizia: “É a BOPE! É a BOPE!”. Conferi se meu rosário estava comigo e respirei fundo. Olhei no retrovisor e o carro que eu havia ultrapassado não estava mais lá. Só vi o farol alto dos policiais, que ainda ligaram o giroflex enquanto eu parava a moto na frente do posto de gasolina para tomar o famoso enquadro.


Não deu em nada. Ninguém tinha flagrante, a moto tá certinha, minha carteira também. Mas os caras do Batalhão de Operações Especiais são chatos. Viram que o Mateus tinha passagens por furto de mercado e já começaram a interrogá-lo. Ele falou que roubava chocolate escondido. Mas que agora não rouba mais. Advertência, reparo de danos, prestação de serviços... tudo isso ele tinha cumprido, conforme consta no ECA (Estatuto da Criança e Adolescente). Mas o menor nunca fez parte das estatísticas dos mais de 20 mil adolescentes presos. Aquele dia ele me contou que até teve medo de que fosse pego. Perguntaram onde ele morava, brincaram com o frente do tráfico na comunidade dele, disseram que não iria durar muito.


Foram 15 minutos de perguntas, mão na cabeça e perna aberta. Ainda me fizeram ligar a moto e olhar de perto o farol dela. Um deles dizia com a cara fechada que eu poderia atropelar uma família. Nem discuti. Ouvi aquilo olhando para o fuzil que estava sobre o tórax do outro policial, me perguntando se precisava de tudo isso mesmo. Na volta, Mateusinho me abraçou. Deu risada, agradeceu por não estar com nada. Depois voltou a cantar funk, só que ao invés de putaria, ele cantava agora proibidão: “é que o crime não é o creme, se tu não deves não treme, eu to cansado de kaô, ô, ô, ô”. Ao deixar ele ali no pé da Serrinha, antes de voltar pra minha casa, eu falei: “vê se te cuida ein, mano”. Ele me falou a mesma coisa. Apertou minha mão e me pediu uma moeda pra pegar um Gundang ali no boteco.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Época de eleição


É tanta 'informação' 
que eu fico na dúvida.
Época de eleição?
Prefiro escutar música!

Aprendo muito mais
ouvindo um Racionais,
do que a esses candidatos
de propostas sempre iguais,
das quais já escutei anos atrás.

Mas... pra quê ir lá votar?
Se a justiça é ineficaz!

Nesse país gigante,
com dimensões continentais,
 onde a ordem vence a paz.

Uns querem unidade...
Nos dias atuais
falta é oportunidade!

No Brasil da impunidade
menorzin de pouca idade
já num quer mais ser criança!

Eles mandam militares
para as ruas da cidade
dando falsa segurança!

Nóis se lembra do prefeito,
que antes de ser eleito
usou frase de efeito
pra falar de esperança

Foi aceito no pleito,
estufou o peito,
pra no fim teu preconceito
ser o que restou de herança!

É foda, cansa!
Só que é no interior de nós memo
que começa a tal mudança.


terça-feira, 9 de outubro de 2018

Não passarão

Hoje o dia amanheceu estranho. Chuvoso. Cinza chumbo. Desde que botei o nariz na rua eu senti um ar pesado no rosto das pessoas. Almocei no RU da Med. Veterinária e o assunto entre os corredores não tinha como ser outro: Bolsonaro. Os que ainda possuem um pouco de bom senso, preocupados com o futuro do país, estão se perguntando o porquê!

Por que esse cara? Não é possível que as pessoas estão botando fé num babaca que está há 3 décadas num cargo público em Brasília, sem nunca ter proposto algo de relevante para a vida da população. Eles realmente acreditam (ou fingem acreditar?) que esse patrício vai trazer a mudança que a política nacional tanto precisa? Ah, faça me o favor...

'Será que ninguém enxerga?' eu me perguntava enquanto empurrava a bicicleta na calçada e observava as pessoas. Desci pra pedalar na pista. Quando cheguei na av. Roberto Silveira o semáforo fechou. E a ciclovia fica do outro lado. Começaram a vir os veículos do túnel, então eu continuei indo devagar pelo cantinho direito da via enquanto ainda pensava no resultado das eleições. Mas o fluxo de carros não diminuía... Fui vindo mais pro meio da faixa da direita porque logo ali na frente tinha um busão parado no ponto de ônibus. Havia outras 3 faixas, além da ciclovia e da faixa de ônibus.

Beleza, cortei o busão e segui pedalano de boa, olhando toda hora pra trás para saber o momento exato de atravessar rumo à ciclovia. Só que os carros e motos não me davam nenhuma brecha. Fui diminuindo a velocidade até que um homem atravessou na minha frente e cruzou a avenida. Tentei ir de embalo, mas lá na primeira faixa da esquerda vinha um maluco à milhão. Fiz que fui mas voltei. E logo vi que o semáforo mais a frente tinha ficado vermelho. Olhei pra trás: os carros todos já diminuindo, aquele transitozinho de sinal fechado, né. É agora!

Levantei o braço esquerdo, virei o guidão pra atravessar e quando eu olhei de novo pra trás vinha um taxi cheio de pressa na faixa do meu lado. Como eu tô sem freio só mudei a direção do camelinho de novo, mas não parei. Nem ele. Pra ajudar, tinha um carro mais a frente saindo da calçada e ocupando a passagem na minha faixa.

Estávamos já há menos de 50 metros do semáforo. O taxista buzinou, como se o problema fosse eu na frente dele e não um sinal vermelho. Não tinha necessidade. Eu já bem puto da vida com aquela situação fiquei ainda mais nervoso com a buzinada no ouvido. O sujeito parou o carro do meu lado, roda com roda. Começou a falar de dentro do taxi alguma coisa que eu nem ouvi. E sua passageira ali no carona. Eu abaixei pra ver a cara do cidadão e desabafei:

- Tu não me viu, não? Você é cego? Não tá vendo que tá vermelho essa porra? Tá achando que vai passar por onde? por cima?

Escutei ele esbravejar alguma coisa do tipo 'tem que andar na ciclovia!'. Ô glória... Peguei a bike e passei na frente dele pra atravessar. Ainda falei:

- Tava tentando ir pra ciclovia antes de você quase me atropelar né!

Ele segue olhando pra mim de dentro do carro com uma cara de babaca. Eu encarei de volta e fui pedalar. Quando enfim cheguei na ciclovia e vi ele lá paradão no sinal vermelho confesso que me veio um sentimento de vingança por cima do susto que aquele arrombado tinha me dado, então estendi a mão direita pra ele e o meu dedo médio imediatamente se ergueu.

- Agora fica aí, seu otário!

Respirei fundo. Gritei uns dois palavrões pra tentar me acalmar. Minha vontade era gritar #EleNão Mais a frente crianças atravessavam a faixa de pedestre em direção ao Campo de São Bento. Fui freando com a sola do tenis bem devagarinho até parar na entrada. Ouço então outra freada brusca.

- É caô que você quer arrumar então vamo resolver esse negócio aí!

O cara voltou, parou o taxi ali, desceu do carro e veio pra cima da mim falando alto. Tinha ficado macho com meu dedo do meio. Apesar de bem maior que eu, mantive o mesmo tom de voz dele e não deixei se crescer, não.

- Irmão você jogou o carro em cima de mim, você tá errado cara. Ainda fica buzinando na orelha dos outros. Sai fora!

Ele olhava pra mim na maldade. Continuou falando alto, discutindo, me ameaçando. Não conseguía prestar atenção nas palavras que saíam da boca dele. Nada ali fazia sentido. Não baixei a bola, nem saí de cima da bicicleta. O que ele queria era uma fagulha pra sair na mão. Só que eu não vou ficar brigando com maluco na rua.

Outras pessoas começaram a olhar pra gente e ele recuou. Eu aproveitei, subi a calçada e entrei no parque. O bico ainda ficou falando merda, fazendo ameaças enquanto eu metia o pé. Demoro. O que ele quiser eu quero em dobro. Ainda bem que nenhum de nós anda armado. Se não você num estaria nem lendo essa história, né.


Nós temos apenas 19 dias pra barrar a ascensão do fascismo no nosso país. Faça a sua parte. Fascistas não passarão. Nem por cima.








sábado, 29 de setembro de 2018

Partiu? (não-mais-treta)

Partiu?
 Virar o jogo!
Ganhar a partida!

Se mexer
desligar a tevê,
fechar as aba do tt
e do fb...
ir viver a vida!

Vai, mulekote,
Dis-po-si-ção!
Cê é bem mais forte
Que toda opressão!

O mundo precisa 
É de posição.
Se não, irmão,
Ele te pisa 
E vira depressão.

Onde vencer é uma obrigação, né?
Se desistir cê tá de tiração, Zé

Vai...
Supera sequela,
Não amarela,
Tira tua mente da cela,
Liberdade cantando pra ela.

Partiu...
Siga seu ritmo,
Sempre crítico,
Pois todo ato é político!

Do sotaque que falo
À berma que eu uso
Parsa, não sou conduzido,
Conduzo.

E não vou tolerar abuso no rolê
De quem devia só servir e proteger
E prefere vigiar e punir,
Forjar e omitir,
Errar e fugir...

Partiu,
Mas é pra frente que se tem que ir,
Jamais regredir.

Que a empatia que habita em ti
Possa, enfim, em mim refletir.











sexta-feira, 16 de março de 2018

Ano de eleição ou ano de copa?

Recém chegado no ambiente carioca eu brotei pra ver um pouco do jogo do Flamengo na Liberta, ouvir o som das mina e tomar aquela gelada. Cheguei na Cantareira tava rolando um baile só com dj's mulheres. Tocavam uns funk relíquia tipo Mc Marcelly, Valeska e Tati Quebra-Barraco. Ao redor, tinha uma porrada de vendedor ambulante com seus gorós, chicletes e cigarros; além dos bares e carrinhos de lanche que em suas tvs exibiam o jogo da Libertadores. Bolei um pra entrar no clima. Enquanto isso, lá no Equador, o Flamengo empatava sem gols com o Emelec.

Traguei o baseado, matei a cerveja e deixei a ponta de lado, ali memo onde eu tava sentado. Na praça algumas crianças brincavam, suas mães ali perto, um morador de rua descansando atrás de mim, vários catadores de latinha e os jovens universitários que se divertiam, gastavam grana e usavam suas paradas ao livre. Reparei numa menininha vidrada na tela do celular da mãe. Ela chegou bem pertinho de mim, andando e olhando pra tela, devia estar jogando, distraída, nem percebeu os meus olhares. Assim como eu nem tinha percebido o lance do gol do time equatoriano.

Um silêncio tomou conta do entorno da praça. Poucas comemorações de torcedores rivais. E, na parte que eu tava, a galera parecia bem mais focada em dançar, beber, fumar e girar bambolê. Não colei lá no meio, fiquei de canto, mas deu pra ouvir quando a mestre de cerimônia pegou o microfone para informar às pessoas sobre o assassinato de Marielle Franco e seu motorista Anderson Pedro, no bairro do Estácio, quando voltavam do evento 'Jovens Negras Movendo as Estruturas'.

MARIELLE VIVE!

O carro em que eles estavam foi alvejado por ao menos nove disparos, todos em direção de Marielle,  no banco do carona. Socióloga por formação e cria de favela, ela foi a sexta vereadora mais votada nas últimas eleições municipais do Rio de Janeiro com 46,5 mil votos, pelo PSOL. Recentemente, Marielle havia assumido o cargo de relatora da comissão da intervenção militar na câmara municipal. Ela também havia denunciado o abuso de poder do 41o batalhão da PM, já conhecido pela violência nas operações policiais, que no último sábado matou 2 jovens na favela do Acari.

- Foi mais uma mulher negra assassinada nesse país!

A notícia da execução cortou a energia do baile. E a minha também. Poucas pessoas ainda dançavam quando Vinícius Junior entrou no jogo fazendo sua estréia na principal competição do futebol sulamericano. Logo num dos primeiros ataques o menino vinha marcado carregando pela direita, quando chegou na entrada da área puxou pra dentro, tirou de um, tirou de outro, bateu e a bola ainda desviou na zaga antes de ir parar no fundo das redes. Um golaço que eu só fui ver no replay.

Alô Tite, o garoto é brabo!

De instinto me levantei. Fui ver de perto o que tava acontecendo. Queria saber do lance, como foi a jogada do gol. Parei pra ver a partida, que ficou mais corrida, com mais chances de gol. Vi Dourado perder uns dois gols de cabeça. Depois, num contra-ataque, Diego só ajeitou pro Vinícius bater novamente de esquerda, dessa vez sem desvio, e carimbar a vitória fora de casa. O moleque é bom mesmo.

- Chama ele, Tite! Melhor que o Taisson!

A galera flamenguista do bar riu. Até concordaram. Eu fui tentar acender um cigarro e não achei meu bic, nem tinha mais vontade de continuar por lá, até tocar o Afro Rep do Rincon Sapiência. Pedi um isqueiro emprestado. Se pá eu até avistei o Choice e Coruja BC1 de role ali na Cantareira. Dei um tempo curtindo a música que rolava mas aquela fita da Marielle tava entrando na minha mente. Mano... E se fosse minha mãe, minha vó, minha mina? 

Porra, nem no mês das mulheres uma militante da causa social na política tem sossego no Brasil, onde o feminicídio mata oito por dia. Também, né... Além de ano de copa, 2018 é ano de eleição. E Marielle era uma ameaça pro conglomerado de poder que se estabelece nesse sistema sanguinário. Eles não querem mudança, renovação. Eles querem a quebrada e a pista do jeitinho que tá, porque assim funciona. Pelo menos pra eles.

Não pra nós, irmão. 15 milhões de desempregados, segundo o vendedor de balinha no ônibus que eu peguei indo pra São Gonçalo, um dia desses. Acuados pelo poder bélico do poder público que se diz em nome da segurança. Uma (falsa) segurança seletiva. Só que a galera da praça parecia mesmo estar mais preocupada com a vitória de virada do Mengão na Liberta, justamente o seu time do coração. Afinal, nesse país todo dia morre uma mina preta de quebrada. 

Sua luta não será esquecida, Marielle.

Marielle resiste. Filha de Yansã e Obaluayê, essa guerreira não terá sua passagem esquecida. Assim como tantas outras mulheres de periferia que tiveram suas vidas interrompidas brutalmente. O assassino dela e de seu motorista precisa pagar na justiça pelo que fez. E a investigação deste caso deveria esclarecer o(s) real(is) mandante(s) por trás desta execução cruel. Pois de que vale um título de grande expressão no futebol, se neste país a liberdade é silenciada por meio da bala?

Marielle sempre presente!

Descanse em paz, M.F
aqui a luta continua.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Cadeiradas na Costela


O tempo nublado fez com que não houvesse sol naquela cinzenta tarde de sábado, no centro de Florianópolis. O ensaio do bloco de samba-reggae Africatarina reunia cerca de quinze ritmistas e chamava a atenção dos curiosos que passavam pela Praça XV e pelo terminal velho. Uma porção de pessoas foi se reunindo ao redor da batucada. Mestre Edinho, ao centro da roda de tambores, era quem ditava o ritmo dos repiques, caixas e surdos. Sempre que alguém se aproximava dos ritmistas ele já perguntava imediatamente, exibindo seu costumeiro sorriso:

- E aí, quer vir tocar com a gente?

Uns rejeitam, alegam estarem apenas olhando. E então, antes de meterem o pé, tiram uma foto ou gravam um pequeno vídeo pra postar na rede social. Mas há também aqueles que aceitam o convite do mestre, sempre disposto a ensinar. Tudo ali na hora mesmo, no boca a boca, na simples linguagem oral percussiva, enquanto o ensaio acontece. Se a pessoa pega o ritmo e assimila a batida do instrumento, pronto, eis um novo integrante do bloco.

Já corria uma hora de ensaio quando um sujeito de baixa estatura, vestindo uma camisa desbotada do Grêmio se aproximou e ficou observando o batuque, bem de perto dos instrumentos, quase encostando em uma das integrantes que concentrada tocava sua caixa. Sem interromper o ritmo do samba-reggae, o mestre foi lá e perguntou ao homem com a maior boa vontade se ele queria aprender a tocar. O sujeito negou o convite e permaneceu imóvel, de olhar fixo para as caixas.

O mestre então pediu ao homem que se afastasse um pouco. O rapaz não entendeu, ou se fez de desentendido, e continuou por ali. O ensaio foi interrompido e o mestre então pediu com educação e voz firme para que sujeito se afastasse, pois ‘estava atrapalhando’. Os membros do grupo começavam a perder a paciência com o cara, que com cara amarrada finalmente se afastou um pouco, continuando ali por perto.

O repique chamou, a batucada respondeu, subiu o ritmo e assim o ensaio ia voltando ao normal. O sujeito com a camisa do tricolor gaúcho estava visivelmente embriagado e começou a falar sozinho na praça. E não pareciam palavras lá muito agradáveis. Entre palavras incompreensíveis que ele soltava, o homem bradava que Florianópolis não tem samba, que nunca teve, que Santa Catarina não era terra de carnaval… E que era coisa de baiano, de macumbeiro…

Pra quê, né? Alguns integrantes do grupo ouviram, não gostaram nem um pouco e ficaram encarando o sujeito, que ora se aproximava, ora se afastava. Quando o mestre parou o som para passar uma outra música, o rapaz com a velha camisa do Grêmio aproveitou o silêncio dos instrumentos pra falar alguma outra merda. A galera do bloco nem deu muita bola e o ritmo logo voltou. Um grandalhão mal encarado de camisa regata, que até então apenas assistia o ensaio encostado no muro foi lá tirar satisfação com o homem.

Os dois discutindo e a batucada rolando... Não se ouvia muita coisa entre o toque das marcações, apenas a troca de ofensas e ameaças. O grandalhão disse que se não fosse o ensaio quebrava ele ali mesmo, em plena praça. O senhor gremista, muito menor e mais velho, não demonstrava medo algum e desafiava o gigante do alto de sua coragem etilicamente impulsionada. Na iminência da agressão física o pessoal dos tambores parou de tocar e alguns foram lá pedir calma aos dois cidadãos. O mestre também foi lá conversar com o gigante, ao mesmo tempo que um rapaz que tocava surdo, também grande e forte, foi tirar satisfação com o gremista.

- Fica de boa, fica na tua!

Tudo parecia resolvido. Cada um para um lado. O sujeito com a camisa do Grêmio foi em direção a catedral. O grandalhão rumo à Alfândega. Os ritmistas voltaram a tocar. Mas o grandalhão não quis deixar barato. Aproveitou o momento de distração e se lançou atrás do gremista, que ameaçava ter uma peixeira, escondida. Os dois seguiram discutindo de perto em direção à rua, a 50 metros de uma cabine da polícia. Um taxista foi lá apartar o bate-boca. Os batuqueiros do bloco revezavam olhares entre o rosto de seu mestre e a discussão que se aproximava da rua. De longe, os ânimos pareciam mais tranquilos, realmente parecia que dessa vez ficaria por isso mesmo.


Apenas parecia. O gigante foi até a Alfândega e arranjou por ali uma cadeira velha de madeira, bem danificada. E o senhor, que momentos antes provocara os batuqueiros, agora estava sozinho, próximo a um dos bancos da praça XV. O grandalhão de regata aproveitou o descuido do tiozão, que só percebeu que iria levar uma cadeirada na costela quando a própria cadeira (e os braços do grandalhão) vinham em sua direção. O gremista ainda tentou resistir. Só foi cair no chão na quarta cadeirada. Na sexta, os pedestres que por ali passavam contiveram o gigante em fúria, fazendo com que a sétima cadeirada acertasse apenas o chão da praça. E por lá ficaram. A cadeira e o senhor. O grandão logo saiu fora.

Já o gremista foi se levantando ao poucos, com dificuldades em permanecer de pé. Caminhava mancando vagarosamente. O ensaio, que já estava no final, não teve mais clima para continuar. O tempo estava com cara de chuva. Depois da cena, o mestre agradeceu a presença de todos e pediu para que lhe ajudassem a guardar os instrumentos na Fiat Doblô, estacionada ao lado da praça. Disse também, com um sorriso meio amarelo, que espera que o próximo ensaio seja mais tranquilo.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Welcome to Torre de Babel

Num não-tempo, sem espaço próprio como sujeitos universais e anônimos que somos, eu e meu parça Welton fomos de motoca pra São Paulo, e lá demos aquele piãozinho, apézão mesmo. Já faz uns dois anos essa mão aí, que depois de muita ideia trocada, umas risadas e uns gole, entre diálogos e interações com vários tipos, várias cenas flagradas dos discretos e desinibidos personagens da maior cidade brasileira. Eu já nem morava mais lá, mas confesso que bateu aquela saudadezinha da babylon... Aí saiu um free, depois virou umas rima de final de caderno, e então se uniu com os videos curtos que eu vinha gravando no radinho. Segue o registro e a letra.



Quem tem mizuno sai de jet no pião da madrugada
Transporte público pagando o frete de obra superfaturada
É pé que passa apressado pedindo sempre passagem na viagem
Um, dois, três, quatro é quase cinco bilhão de passageiros
Nas linha da cidade que faz circular dinheiro e junto circula mágoa
De noite aqui sobra chuva, de dia aqui falta água
Por que o rio tá enterrado, largado, no condado acordado
Terra que não cochila, tem que andar ligeiro e não pode vacilar
Muita calma polícia, muita calma ladrão
Pra que o rolê não termine apenas em Consolação

É a madruga que te suga do Helipa à Brasilândia
Pois é na rua que cês frita achando que é gozolândia
Mas é que a lua traz consigo muito além da escuridão
Trabalhador que troca sonho pra tirar seu ganha pão
E entre shopping e sede de banco,
Num tom de pele que é menos branco,
Faz da passagem, à margem, tornar seu lar,
E deita ali com as reciclagem se apropria do não-lugar,
Onde o farol das nave chave ofusca vários olhar
Quando a Gomide tromba a Augusta na busca de achar um bar
Lotado de alma vazia, fumaça no ar que respira,
Garoa que não alivia, só não pira nas pira da noite logo que vira, Pela sombra vai na tranquila, relaxa, que o mundo gira
Nas calçadas escura e imunda que abunda fim de cigarro
Aperta o passo pra chegar na multidão de solitário
Na avenida feita pra carro, a luxúria quer mais um trago,
Enquanto uns baixa a cabeça outros passam tirando sarro
Mas a história muda na praça, quero ver você fazer graça Lá na parte da cidade 24h ocupada

Cultura alternativa na pura cannabis sativa Com a mente e a voz ativa, que sente a cidade viva Vive a rua que é sua companheira fiel Atua e sua, crua e nua, Welcome to Torre de Babel!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Carona de volta para Florianópolis

Apesar da ida ter sido um tanto conturbada, continuei firme na ideia de pegar carona. Conhecer pessoas novas, viajar com mais liberdade e poder descer lá na quebrada eram algumas das vantagens pesadas na balança. Dessa vez o combinado era sair pela manhã da capital paulista. E eu, como um sujeito que não é lá muito amante das primeiras horas do dia, principalmente nos finais de semana, fiquei receoso em perder o horário e furar com o mano lá do aplicativo. Como partiríamos cedo num sábado, tive a genial ideia de virar a noite na sexta-feira paulistana. Assim eu me cansaria fisicamente, dormiria na viagem e não atrasaria o cara que ia armar a caroninha.

O tradicional samba da rua Treze de Maio era o meu destino. Pela facilidade de acesso e com muitas saudades de uma roda na rua, encostei lá com minha irmã. Não sem antes tomar uma gelada, merecida, é claro, no bar da esquina. E ela nem pra me acompanhar... A garoa teimava em fazer parte da noite. Eu só pensava positivo, pra não ficar doente, afinal, não ia ter canja de galinha. Enquanto ela procurava uma amiga, me aprocheguei da batucada. A rua tava cheia. Mas até que o caminhão da limpeza passava com facilidade. Aquele pagode reunia uma bela variedade social, com grande presença dos nego veio do Bexiga, ali no miolo, e também dos universitários do centro da cidade, bebendo seus drinks.

Minha irmã partiu. E o samba continua... A garoa ameaçou a virar chuva. E eu me encostei no muro da igreja de Nossa Senhora de Achiropita, ao lado duma rapazeada da minha idade que também curtia o rolê. Foi dali que ouvi o samba do Vai-Vai para o próximo carnaval. Mais cadenciado, é lógico, né, mas já deu pra sentir o peso do bagulho que vem por aí. E assim a turma do Madeira de Lei resolveu brecar, talvez para poder virar com tranquilidade o conteúdo de seus respectivos copos. Só, entre as gotículas de água e a fumaça que pairava na calçada, achei melhor caçar o que fazer, até porque meu relógio ainda nem marcava duas da manhã.

Vai no Bixiga pra ver...

Desci a Santo Antonio, longe de pensar em casamento. Vim desviando das poças e falando sozinho até desembocar lá na Roosevelt. Os bares estavam mais cheios que a praça. E eu estava com mais fome do que vontade de beber. Acendi um careta. O mano que tava na rua viu. Me olhou, mas não pediu. Eu passei reto, fingi esconder o maço. Me arrependi logo na próxima esquina do gesto egoísta, e retornei pra falar com o cara. Ele se pá guardava carros ali. Tava com mais dois. Dei dois cigarros, dizendo que estava pensando em parar de fumar.

- Ah, então dá o maço de uma vez, né?

Eu dei risada. Tinha comprado o Derby naquele dia, e não pretendia me desfazer dele tão facil assim. Segui minha caminhada Augusta acima, sem dar guela, entre filas de balada e viaturas policiais. Num determinado trecho lá, já quase chegando na Paulista, o fluxo de gente aumentou devido aos vendedores ambulantes de goró e seus clientes. Driblei caixa de isopor, lixeira e bicicleta, quando escutei um: "Ei, parça!".

- Cê num tem uma sedinha aí?

Opa. Fiz a noite do mano mais feliz, já com a intenção de retornar pra casa. Só fui ver que eram 3:30 nos relógios lá da Paulista. No caminho de volta, tinha um viatura na calçada da Nove de Julho. Mó breu. Clima pesado na cidade. Achei que ia enquadrar. Tinham matado quatro ou cinco, lá na Sul, na noite anterior. O cara nem olhou. Dobrei a esquina aliviado. Saiu um mano do ponto de taxi e já me questionou:

- Vai querer o que?

Agradeci e segui em frente. Ele insistiu, só que eu nem cheguei a decifrar a frase, tava cansadão já. Deixa a mercadoria dele pra quem tá no apetite, né. Subi até a cozinha mentalizando comida na geladeira. Lembrei de umas bananas que eu tinha. Das bolachas da minha irmã. Quando fui ver mesmo já era mais de 4 da matina. Encostei pra descansar um pouco, duas horinhas...

Levantei quebraaaaaado. E fui. Não podia rolar atraso! Tomei um banhão, peguei minhas fita e saí de estomago vazio. Claro que as bananas e bolachas tavam na mochila, né. O ponto de encontro ia ser lá na entrada do metrô Butantã. E dali até a estação mais próxima era chão, hein marvado. Fui tentar os busão que passam na Nove de Julho. Algum deles tinha que ir pra lá! Santo Amaro, não. João Dias, não. Jardim Ângela, não pô. Aí vem um comboio da Rota, à milhão. Eu olho no relógio e descubro que tenho meia hora pra comparecer no local marcado com pontualidade.

Num desses ônibus que pararam eu li 'Francisco Morato'. É perto, né motora? Avisei o maninho lá da carona que eu ia demorar um pouco. Não tinha trânsito, mas a cada ponto era uma parada que a lotação fazia. Assim foi até a Cidade Jardim, onde ela cruzou a ponte mas não seguiu reto até o metrô. Ish, era hora de saltar. O cara me ligando e eu dizendo que estava quase lá. Mentira não era. Eu só não sabia muito bem pra que lado andar.

Segui o fluxo de pessoas e logo um guardinha daquelas casas arborizadas da Zona Oeste me confirmou a direção correta. Apertei o passo, troquei a mala de ombro e fui. Foi fácil de achar o maluco, até porque o veículo da carona era uma Kombi, azulzinha, muito bem pintada. Tava ele e um outro mano, com um óculos tatuado no antebraço. Cumprimentei os caras, recusei o café na garrrafa térmica e ainda fiquei sabendo que, além daquelas tralhas lá atrás, um casal também viajaria conosco.

Enfim, partimos. Antes de sairmos da grande São Paulo a chuva encontrou a gente. O tempo tava cinza, e parecia que não iria mudar tão cedo. Na frente, os dois rapazes bolavam um cigarro atrás do outro, que, as vezes, chegava até mim. Relaxei assim que aprendi a travar a porta da Kombi. O papo no carro era sobre comida. Aí que eles explanaram que tinham comprado uns pães, que tavam ali atrás, que podia pegar. Só então aceitei o café da garrafa. Bem doce. O motorista disse que a mãe dele tinha feito. Lembrei do cheiro do café da minha mãe. Até que o assunto passou a ser família, a saída da casa dos pais...

Partiu região Sul! 

Ao lado do cara que vinha guiando, tinha um patrício mais ou menos com a minha idade. Ele contou que tava desanimado com o cursinho, que não queria pagar faculdade e partiu pra viajar. A ideia era chegar no Uruguai, mas não sem antes dar um mergulho em Floripa, né. Disse não ter nem onde ficar quando desembarcasse na ilha. O casal, ao meu lado, ja emendou que ficariam na casa de amigos, que parecia ser uma casa grande e tals. O meninão já tinha arranjado hospedagem, pelo menos por uma noite.

Seguimos de boas até o Vale do Ribeira, onde descobri que tinha uma gatinha viajando com a gente, no meio das bagagens. Pensei mesmo ter ouvido uns 'miau'. Ali também foi onde a kombizinha começou a vacilar. Parece que a terceira não tava engatando. Paramos num posto em Jacupiranga para dar uma olhada no câmbio. A primeira marcha também não estava entrando. O mano se enfiou embaixo da perua e saiu disposto a encontrar um mecânico. Antes, nos avisou que, além daqueles pães, tinham algumas salsichas. Armou. Tava na lara, mesmo.

Eu já tava no meu terceiro pão com salsicha quando ouvir o mecânico falar, com a voz abafada pela kombi:

- Ish, essa peça só lá na cidade.

Ele foi buscar de motinha, disse que era uns 20 minutinhos, mas já parecia ter passado mais de meia-hora. A moça tinha capotado lá dentro do carro. O namorado dela tava sentado ao meu lado, com uma cara de desânimo semelhante à minha. O rapaz do óculos no braço tinha ido procurar café pra botar na garrafa. E o motorista da kombi ora procurava sua gatinha através dos vidros, ora se deitava embaixo do veículo.

O mano enfim chegou e montou rapidinho o bagulho. Levou uma onça do piloto. Nós seguimos viagem rumo a serra do Cafezal. Tranquila, tirando algumas curvas em que o parça lá cismava em comer o acostamento. Chegamos ao Paraná, passamos pela região de Curitiba e, ao seguirmos rumo Santa Catarina, li de relance que era o último posto antes da serra, o próximo só depois de 50 km. Nem dez minutos depois o cara me solta que a gasolina estava acabando.

Paramos noutro posto, ainda no PR pro cara ver se abastecia. Só que aquele não era um posto de combustível, pelo menos não mais. Tinha apenas um restaurante, umas casinhas e uma oficina de caminhão, lá atrás. Nosso motorista até tentou comprar gasosa de um sujeito que trabalha no restaurante, mas um cara que chegou alguns minutos antes de nós já estava fazendo isso. A sorte é que no diálogo com a rapazeada lá de dentro ele conseguiu uma carona até o próximo posto, em Garuva, uns 45 minutos dali.

Durante as duas horas de espera que tivemos naquela kombi pude ouvir dois cd's que trouxe da casa da minha irmã. Um do Ataulfo Alves, outro de uma sambista paulistana que ela tinha ganhado no Sesc. Eu e outro moleque fumamos uns 4 baseados naquela espera. Os últimos, do lado de fora, porque o rádio da perua agora tocava rock. Deixamos a gata e o casal lá, mais a vontade, enquanto a gente tomava um ar e soprava a fumaça ali fora. O maninho entrou, disse estar com frio, e tava mesmo. Fui até o outro lado do posto, mijar ali na moitinha e aguardar um doido descer do outro lado da rodovia com três galões de gasolina no braço.

le gusta la gasolina

Depois que sentei na calçada, não demorou 10 minutos pro nosso piloto descer de um caminhão que encostava na beira da pista. Fui ajudá-lo, pois não aguentava mais aquela espera agoniante. Fomos cair na estrada outra vez com o dia já escurecendo. Ele contou que ninguém queria parar pra lhe dar carona de volta, que estava quase desistindo quando o caminhoneiro parou. Exausto e chapado, eu não acompanhava mais a música, nem os miados da gatinha, muito menos a conversa que rolava. Confesso que dei algumas pescadas.

Lembro das cidades catarinenses passando, da paisagem noturna, da chuvinha pingando no vidro. Alguns pedágios vieram e os caras ficaram na brisa de que toda atendente de cancela se chamava Maria. Só que, não. Descobrimos na quarta vez que era só coincidência. Passei a prestar atenção no caminho somente ao ver despontar no litoral a formosa Ilha de Santa Catarina. Naquele momento começaram os comentários entusiasmados a respeito da ilha, de suas praias e da vida noturna. A movimentação em novembro já era grande.

Ao sair da Br-101 avisei o piloto que morava na primeira a esquerda. Ele passou reto. Pedi pra descer ali na passarela do Monte Cristo mesmo, já era. Ele parou, mas como tava chovendo ainda resolveu me deixar mais perto de casa. Fizemos a volta por Campinas e pedi pra parar na frente da padaria. Subir a estreita ruazinha da Chico Mendes na kombi lotada de tralha com um motorista chapado às 11h30 da noite não me pareceu uma boa ideia. Mas tava 'polim'. A chuva até ameaçava parar. Peguei meus bagui, paguei o cara e agradeci.

Na entrada de casa uma barata veio me recepcionar. Liguei pra minha mãe avisando que cheguei bem. Larguei as coisas no chão e capotei no colchão sem lençol. Devo ter sonhado com a poltrona dum puta um ônibus-leito.

sábado, 31 de dezembro de 2016

As perdas de um ano trágico

Dois anos atrás eu escrevia aqui sobre o quão cruel o ano havia sido para a arte. Nesse sentido, 2016 supera. Fácil. Não só com a arte, mas também com o esporte, né? Afinal, o avião que levava o elenco da Chapecoense para a final da Copa Sul-Americana caiu na Colômbia deixando 71 mortos e 6 feridos, entre jogadores, funcionários do clube, profissionais da imprensa e de outras áreas. Tragédia que chocou não só os brasileiros, mas todo o mundo. O Atlético Nacional, bicampeão da Libertadores, ofereceu o título da Sul-Americana à Chape, que naquela madrugada de 29 de novembro ia a sua primeira final internacional.

Esse elenco jamais será esquecido!

Outro triste marco no esporte esse ano foi a morte do pugilista norte-americano Muhammad Ali, o homem do século passado.

- Mas pera aí, e o Pelé?

Pelé é conhecido como o atleta do século passado. O maior do esporte mais popular no mundo. Ninguém jogou como ele. Ali, além de ser o maior nos ringues, era o maior fora deles. Recusou lutar na guerra do Vietnã, por se opor à dominação étnico-racial estadunidense no país. A guerra foi um desastre. Ali foi punido, perdeu dinheiro, ficou um longo período sem lutar, mas não abaixou a cabeça. Tal qual Malcolm X e Martin Luther King, foi um líder negro em um dos lugares mais racistas do mundo. Cassius Clay, como Ali fora batizado, faleceu em 3 de junho.

Se liga nesse clipe do Rashid, do som Quando Éramos Reis, mesmo nome do filme que homenageia Muhammad Ali:



Ainda na linha mundial, 2016 nos levou Prince, David Bowie e, mais recentemente, George Michael. Todos grandes artistas, ídolos do pop. Em terras brasileiras a voz grave de Cauby Peixoto também silenciou este ano.

Silenciou ainda os corpos musicais dos brasileiros Papete e Naná Vasconcelos. Ambos grandes percussionistas, reconhecidos internacionalmente e quase anônimos aqui no país.

Olha só Papete nos dando uma verdadeira aula de percussão e ritmos brasileiros com pandeiro, atabaque e berimbau; no programa Som Brasil, em 1988:




E mais dois mestres se foram neste ano. Mestres na cultura popular. Verdadeiros griots. São mais duas bibliotecas que desaparecem. Uma na arte do cordel, com a ida do paraibano Mestre Azulão, em 12 de abril. Outra na ginga da capoeira, camará, que perdeu o baiano Mestre Ananias em 21 de julho.

Deixo aqui um vídeo de uma roda de capoeira em Minas que explica por si só o título de mestre de Ananias Ferreira:



Nas letras, a perda também foi considerável. Umberto Eco e Ferreira Gullar se foram, mas deixaram seus valiosos escritos. Confesso que ainda não tive muito contato com a literatura do escritor italiano, mas sua obra acadêmica já me despertou o interesse. O maranhense me fascinou pela bela poesia. Nem um pouco pela crítica de arte ou análise política.

No audiovisual, quem nos deixou este ano foi o diretor argentino que vivia no Brasil: Hector Babenco. Ele realizou memoráveis filmes sobre nossa realidade social como Pixote - A lei do mais fraco, e Carandiru.

Cena do filme Carandiru, em que Sabotage contracena com Rita Cadillac

Já na área de produção musical e direção de televisão, Fernando Faro, idealizador do programa Ensaio foi quem faleceu. Pra mim, simplesmente o melhor programa de música da televisão. O músico da vez responde as perguntas (que não são ouvidas pelo telespectador) de Faro em um palco pouco iluminado, onde somente sua voz e (de vez em quando) o som dos instrumentos rompem o silêncio, dando destaque às falas e perfomances do entrevistado ao longo do programa. Genial.

Só que a principal perda mesmo foi a de Mário Sérgio Ferreira: cantor, compositor e cavaquinista do Fundo de Quintal, o grupo que revolucionou as rodas de samba do Rio de Janeiro. Ele era paulista, de alma carioca. Embora fã dos caras, nunca cheguei a encostar numa apresentação do Fundo. 'Quase' fui umas três vezes. Ora pelo preço, ora por compromisso, ora por atraso mesmo. Em uma delas, na Virada Cultural da capital paulista deste ano, em maio. Cheguei no Sesc Pompéia para retirar o ingresso gratuito e fui informado que já estavam esgotados. Peguei ingresso prum outro show qualquer, que eu nem cheguei a ir. Voltei refletindo na oportunidade que eu acabara de perder, pensando seriamente em curtir o show do lado de fora, talvez tentar falar com os caras. Sei lá. É o Fundo de Quintal, né, velho! Não sabia quando teria essa oportunidade novamente. Na semana seguinte, em 29 de maio, num domingo, falecia Mário Sérgio.

Que 2017 seja mais calmaria, né? Menos atentados, menos chacinas, menos tragédias, menos perdas!
E mais força, que é pra gente enfrentar juntos o que vem por aí, porque o show tem que continuar...




Mas iremos achar o tom, 
um acorde com lindo som
e fazer com que fique bom
outra vez o nosso cantar
e a gente vai ser feliz
olha nós outra vez no ar...