No início do ano eu e alguns colegas fomos covardemente agredidos em frente ao bar Recanto da Pedra do Sal, na rua São Francisco da Prainha, centro do Rio de Janeiro, por um cara branco (apoiado por seus amigos/seguranças) que desferiu vários socos no rosto de uma mulher negra. As pessoas que estavam com ela (todas negras, entre elas uma amiga) tentaram conter as agressões absurdas em cima da menina, mas o homem estava tomado pelo ódio.
Quando tudo parecia se acalmar o sujeito saiu da calçada do bar e veio pra cima da mina novamente, dando mais um murro na cara dela, que agora estava a um metro de mim. Minha reação instintiva foi puxar pra trás o agressor pela gola da blusa. A reação do amigo dele veio no mesmo instante, quando senti um forte golpe atrás da minha cabeça. Balancei, perdi um pouco do equilíbrio, mas me mantive firme em pé.
Olhei pra trás e lá estava um cara mais gordo que eu com uma barra de ferro na mão, fazendo cara feia e se sentindo o bambambam por ter acertado por trás alguém que apenas tentava apartar a confusão. Quando coloquei a mão na nuca pra sentir o ferimento, me assustei com a quantidade de sangue que não parava de escorrer sobre as costas da minha camiseta. Até minha bermuda tinha sangue. Meu primeiro pensamento foi quebrar a minha longneck na cabeça dele pra não sair no prejuízo sozinho, mas desisti da reação quando o ferimento começou a doer.
Eu nem conhecia aquela menina que estava sendo espancada, mas não consegui assistir aquelas cenas horríveis parado, sem fazer nada. Ainda mais em um local conhecido como Pequena África, local de desembarque dos navios negreiros durante o Império, onde o samba fez sua primeira morada no Rio de Janeiro e que hoje é patrimônio histórico e cultural da humanidade. A minha sorte foi encontrar uma vendedora (negra) de churrasquinho e cerveja que me deu um saco com gelo para estancar o sangramento. Ela ficou conversando comigo até eu me acalmar e poder procurar um hospital. Aquela mulher foi um anjo da guarda.
Saí dali sem entender muito bem o porque aquilo tinha acontecido, nem de onde vinha tanto ódio. Depois soube que a história toda começou só porque a menina agredida queria usar o banheiro do bar. Por sorte não aconteceu algo pior com a gente. E, por isso, hoje eu carrego uma cicatriz que aparece bem quando lanço o disfarce no cabelo, que volta e meia me causa uma dor de cabeça, mas que sempre me lembra o quanto é bom estar vivo e poder ter a minha consciência limpa. Não podemos nos calar frente à covardia de nenhum otário covarde que se acha melhor do que os outros por ser maior forte, ter mais dinheiro ou uma arma.
Quis me derrubar, desejou sem dó e vai se fuder quando o mal voltar numa flecha só!

