Cola cum Fróis

Escrevo pela necessidade de me livrar das palavras | @_dudufrois

sábado, 31 de dezembro de 2016

As perdas de um ano trágico

Dois anos atrás eu escrevia aqui sobre o quão cruel o ano havia sido para a arte. Nesse sentido, 2016 supera. Fácil. Não só com a arte, mas também com o esporte, né? Afinal, o avião que levava o elenco da Chapecoense para a final da Copa Sul-Americana caiu na Colômbia deixando 71 mortos e 6 feridos, entre jogadores, funcionários do clube, profissionais da imprensa e de outras áreas. Tragédia que chocou não só os brasileiros, mas todo o mundo. O Atlético Nacional, bicampeão da Libertadores, ofereceu o título da Sul-Americana à Chape, que naquela madrugada de 29 de novembro ia a sua primeira final internacional.

Esse elenco jamais será esquecido!

Outro triste marco no esporte esse ano foi a morte do pugilista norte-americano Muhammad Ali, o homem do século passado.

- Mas pera aí, e o Pelé?

Pelé é conhecido como o atleta do século passado. O maior do esporte mais popular no mundo. Ninguém jogou como ele. Ali, além de ser o maior nos ringues, era o maior fora deles. Recusou lutar na guerra do Vietnã, por se opor à dominação étnico-racial estadunidense no país. A guerra foi um desastre. Ali foi punido, perdeu dinheiro, ficou um longo período sem lutar, mas não abaixou a cabeça. Tal qual Malcolm X e Martin Luther King, foi um líder negro em um dos lugares mais racistas do mundo. Cassius Clay, como Ali fora batizado, faleceu em 3 de junho.

Se liga nesse clipe do Rashid, do som Quando Éramos Reis, mesmo nome do filme que homenageia Muhammad Ali:



Ainda na linha mundial, 2016 nos levou Prince, David Bowie e, mais recentemente, George Michael. Todos grandes artistas, ídolos do pop. Em terras brasileiras a voz grave de Cauby Peixoto também silenciou este ano.

Silenciou ainda os corpos musicais dos brasileiros Papete e Naná Vasconcelos. Ambos grandes percussionistas, reconhecidos internacionalmente e quase anônimos aqui no país.

Olha só Papete nos dando uma verdadeira aula de percussão e ritmos brasileiros com pandeiro, atabaque e berimbau; no programa Som Brasil, em 1988:




E mais dois mestres se foram neste ano. Mestres na cultura popular. Verdadeiros griots. São mais duas bibliotecas que desaparecem. Uma na arte do cordel, com a ida do paraibano Mestre Azulão, em 12 de abril. Outra na ginga da capoeira, camará, que perdeu o baiano Mestre Ananias em 21 de julho.

Deixo aqui um vídeo de uma roda de capoeira em Minas que explica por si só o título de mestre de Ananias Ferreira:



Nas letras, a perda também foi considerável. Umberto Eco e Ferreira Gullar se foram, mas deixaram seus valiosos escritos. Confesso que ainda não tive muito contato com a literatura do escritor italiano, mas sua obra acadêmica já me despertou o interesse. O maranhense me fascinou pela bela poesia. Nem um pouco pela crítica de arte ou análise política.

No audiovisual, quem nos deixou este ano foi o diretor argentino que vivia no Brasil: Hector Babenco. Ele realizou memoráveis filmes sobre nossa realidade social como Pixote - A lei do mais fraco, e Carandiru.

Cena do filme Carandiru, em que Sabotage contracena com Rita Cadillac

Já na área de produção musical e direção de televisão, Fernando Faro, idealizador do programa Ensaio foi quem faleceu. Pra mim, simplesmente o melhor programa de música da televisão. O músico da vez responde as perguntas (que não são ouvidas pelo telespectador) de Faro em um palco pouco iluminado, onde somente sua voz e (de vez em quando) o som dos instrumentos rompem o silêncio, dando destaque às falas e perfomances do entrevistado ao longo do programa. Genial.

Só que a principal perda mesmo foi a de Mário Sérgio Ferreira: cantor, compositor e cavaquinista do Fundo de Quintal, o grupo que revolucionou as rodas de samba do Rio de Janeiro. Ele era paulista, de alma carioca. Embora fã dos caras, nunca cheguei a encostar numa apresentação do Fundo. 'Quase' fui umas três vezes. Ora pelo preço, ora por compromisso, ora por atraso mesmo. Em uma delas, na Virada Cultural da capital paulista deste ano, em maio. Cheguei no Sesc Pompéia para retirar o ingresso gratuito e fui informado que já estavam esgotados. Peguei ingresso prum outro show qualquer, que eu nem cheguei a ir. Voltei refletindo na oportunidade que eu acabara de perder, pensando seriamente em curtir o show do lado de fora, talvez tentar falar com os caras. Sei lá. É o Fundo de Quintal, né, velho! Não sabia quando teria essa oportunidade novamente. Na semana seguinte, em 29 de maio, num domingo, falecia Mário Sérgio.

Que 2017 seja mais calmaria, né? Menos atentados, menos chacinas, menos tragédias, menos perdas!
E mais força, que é pra gente enfrentar juntos o que vem por aí, porque o show tem que continuar...




Mas iremos achar o tom, 
um acorde com lindo som
e fazer com que fique bom
outra vez o nosso cantar
e a gente vai ser feliz
olha nós outra vez no ar...

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Carona de ida para Pindamonhangaba


De greve no trampo e com o aniversário da coroa batendo na porta, quem atendeu foi aquela saudade. Falei pra ela que ia pegar uma carona por meio de um aplicativo que instalei no celular, que já tava tudo certo, a gente ia sair de Florianópolis no comecinho da tarde de quinta-feira, pra chegar em casa de madrugada. Meio receosa, ela pediu para que eu tomasse cuidado no caminho. Não a desobedeci.

O cara da carona disse que já tava a caminho, e eu, como sempre, não tava pronto. Botei na mala as roupas que tavam a vista, tirei o lixo, fechei a casa e fui, de chinelo, mochila na lomba e mala no braço, me arrastando até a rua paralela à Via Expressa, aqui na quebrada mesmo. No caminho até o ponto de encontro ele me ligou, descrevendo outro local, diferente do que a gente tinha combinado. Na real, tinha ficado até mais perto. Só desci a rua e dobrei a direita. O uninho vinho com placa de Caçapava tava lá, me esperando.

Simpático, ele me cumprimentou e me ajudou apertar as coisas no porta-malas. Partimos. No veículo estavam o cara e a mina dele, no banco da frente; e um outro mano, no banco de trás. A paisagem do litoral catarinense ia contrastando com o mato, as casinhas e estradas. O silêncio do carro me fez refletir bastante. Por que será que tem tanto morro? Deve ser formação rochosa antiga, talvez escudos cristalinos... Como o vidro só abre um tequinho, não sosseguei o olhar. Abençoadas sejam as montanhas e pedreiras. Axé, meu pai. Axé na sua morada.

 Pedra Branca do Araraquara

A tarde ia passado, e nós ainda estávamos de passagem. Saindo de Joinville, iniciando a serra, ouviu-se um estalo vindo do capô, seguido de fumaça. A temperatura do radiador acionou a ventoinha. O motorista encostou o carro e foi averiguar o que havia ocorrido. Aproveitei para abrir uma bolacha, tomar um ar na muretinha do acostamento da rodovia e trocar umas ideias sobre carro velho.

Parece que arrebentou a mangueirinha. O trânsito ficou intenso na subida da serra, principalmente por causa da grande quantidade de caminhões. E a gente ali, aguardando a vinda de um caminhão-guincho, que levou longos minutos até chegar. Devidamente rebocados até o posto de serviços mais próximo, a missão agora era tentar remendar a borracha quebrada. A noite vinha chegando, e a água não parava de vazar. Enchemos o radiador no posto, enchemos também algumas garrafas pet; e pensamos em seguir viagem. Não rolou. A água tava escorrendo toda.

O mecânico daquele posto tava mais preocupado era com o motor dum caminhão de 5 eixos. Sem nenhuma pressa, ele respondia as perguntas do dono do carro. Disse que isso aí era com o borracheiro. Que por sua vez não estava no posto, tinha fechado a oficina e ido até Curitiba. Tivemos que esperar o rapaz voltar ao serviço. E isso demorou um pouco. Comi minhas últimas frutas e fui dar uma banda a pé, pra esfriar a cabeça, parelha com a temperatura do radiador do uninho.

O borracheiro enfim chegou, olhou o problema do carro e logo foi atrás duma peça, lá dentro da oficina. Trocaram a mangueirinha, que por ser de outro modelo continuou vazando água. Só que agora em quantidade bem menor. Eles tentaram vedar o buraco, apertar, remendar e contar com as garrafinhas. Decidimos partir. Já devia tá rolando o jogo do Brasil contra a Argentina, pelas eliminatórias.

la maledita

E assim a gente foi, de posto em posto, aquecendo e esfriando a parada, até parar para tirar um ronco em São José dos Pinhais. Dessa forma a gente esperava o dia amanhecer para resolver o problema do carro à luz natural e em horário comercial. Era um hotelzinho de beira de estrada, simples, e o mais importante, com altos café da manhã! Deu tempo ainda de ver o jornal matinal, saber que a seleção goleou e que tavam rolando protestos aqui no Brasil, nos Estados Unidos...

Lembrei do Trump, do Gean, do Dória... Foi difícil conciliar com minha vontade de chegar à SP. Antes das oito da manhã a gente meteu o pé na estrada novamente. Agora sim, parecia que tava tudo certo. E eu não era o único apressado dali. Ao meu lado, o rapaz que iria ao show do Guns N' Roses contava que tinha reservado um quarto de hostel e queria chegar logo pra deixar as malas em casa e correr pra fila. Ele pretendia estar na porta do Allianz Parque até as 17h, embora o show só começasse mesmo lá pelas 22h30.

Ele era do Pará. Disse não ter muitas saudades de lá, deixando clara a sua vontade de morar no exterior. O casal dos bancos da frente logo deu andamento ao papo. O assunto da viagem tornava-se, vejam só: viagens; mais distantes, é claro, porque a imaginação não tem fronteiras. Ela voa. E a gente deslizava pelo asfalto, até chegar mais um pedágio. As muitas plantações de banana da Serra do Cafezal me lembram das que eu peguei mais cedo na cozinha do hotel. Eu ainda tinha mais sono do que vontade de interagir a respeito das cargas tributárias pelo mundo.

A densa paisagem das moradias e encostas nas periferias de Itapecerica da Serra, Embu das Artes, Cotia, Osasco e Carapicuíba me distraíam do rock que tocava no rádio e da ansiedade do cara que ia ao show. Parece ter distraído também o piloto, que tomou a direção da rodovia Anhanguera e atrasou ainda mais a viagem. Na chegada à marginal do Tietê, aquela recepção paulistana: trânsito! Bastante trânsito. Não bastasse ser sexta-cheira, era véspera de feriado, e horas antes do show de umas bandas mais famosas do mundo.

O mano do lado tava agoniado. Queria chegar logo, mas tava tudo parado. Apontei a ele alguns ônibus de frente verde, que iam pro terminal da Barra Funda, e expliquei que do terminal pro estádio é um, dois. Ele tava de malas, e havia combinado anteriormente com o motorista de ficar na rodoviária do Tietê, pra que ele pudesse ir ao hostel de metrô. A ideia não se concretizou porque a Barra Funda tava bem mais perto, então ,passando a quadra do Águia de Ouro, ali, a gente dobrou à direita. A quantidade de carros na Marquês de São Vicente era bem menor do que a da marginal, o que não significa ausência de trânsito, mas pelo menos fluía.
 
 
 Axel Rose e a multidão

Deixou de fluir novamente quando a gente fez o caminho de volta pra cair na marginal e enfim pegar a via Dutra. Mas demorou, viu? Era começo de tarde quando a gente já tomava sol naquele 'anda e para'. Descobri que o piloto tem uma barbearia e viaja à Floripa quase todo mês, pra namorar né. Muitas músicas, promoções, comerciais e vendedores ambulantes depois, nós pegamos o viaduto de acesso à rodovia. O tempo já tinha até fechado, mas o calor ainda era de 38º. Eu, que não tinha almoçado, queria mesmo era um bom banho.

Durante a conversa do casal, encontrei um esboço do meu sotaque. Ele falava meio caipira, carregando o 'r', com aquelas gírias do mato, coisa nossa, né. Ela era bem manezinha, sabes? Puxava o 's', carregava a entonação das frases e adorava usar o diminutivo. Ao logo do Vale do Paraíba a chuva era intensa. Os motoqueiros faziam do viaduto seu grande provador. Chegávamos em São José dos Campos no horário de pico, por isso nos atrasamos ainda mais. Soube depois que chegou a cair granizo por ali. No final, já exaustos, eles discutiram por que ela não conhecia o Mazzaropi, tadinha. E ele, tanso, não havia lido um poema sequer do Cruz e Souza.

Só que aí a gente já tava contornando o letreiro ali perto da Fapi, na entrada da cidade. Pra mudar a vibe do carro ele me perguntou sobre um possível mercado em Pinda para barbearias "assim, mais chique, né". Eu desconversei, disse que tava tudo caro, que preferia cortar meu cabelo na casa de um parceiro. A chuva ainda caía por sobre o para-brisa do uno quando eu apontei a casinha amarela, em frente a árvore. Ufa! Era aquele o banho que eu queria. E ainda nem era meia-noite...

- Manhêeee, cheguei! ãn ãn

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

31 de Agosto - Dia de Golpe

O dia começou cheio já. De mudança, a bagunça do quarto vai além do que já é natural. No país então, vish!


Do trabalho, pela tevezinha que tem na agência de notícias eu peguei o final da fala da senadora Kátia Abreu, do PMDB, que por sinal é o partido do nosso novo salvador da pátria... digo, nosso presidente da república, novíssimo em Folha. Olhei pra tela meio desconfiado. Não pelo resultado da votação no senado, que derrubou o mandato petista. O que achei curioso foi ver uma empresária e ruralista, inimiga dos movimentos sociais do campo, ser a voz que se levantava em defesa de Dilma. Seria cômico se não fosse trágico.


Contradições à parte, o golpe foi dado. Noticiado e aceito. Aqui na universidade os estudantes pareciam se preocupar mais com o tamanho da fila do restaurante. E eu, com o tamanho do meu cabelo. Ou com a falta de xampu, sei lá. Parei num salão que eu vi no caminho. Receoso, perguntei pros caras do lado de fora:

- É só pra mulher, ou faz corte de homem também?


Os caras riram e pediram para que me sentasse lá dentro, na cadeira em frente ao espelho. Na telinha ao fundo dava pra ver a testa de Temer brilhar. Ele fazia o discurso de posse. Ao lado da televisão do salão, duas moças cuidavam das unhas de uma cliente. A intimidade as levou ao assunto do dia: o novo presidente.

- Ai, ele é um cara inteligente, né? Se veste bem, tem bom gosto. Agora sim!

- Pois é, entende de direito. Sabe falar. Oh, tá vendo? Não é aquela mulher que num sabe nem falar inglês, nem formular uma frase… Meu deus!!!

- Sem contar que ele tem livros publicados. É um intelectual, tipo o outro lá, como que ele chama mesmo?

- Fernando Henrique? Eu sempre votei nele, amiga.

- Eu também, nunca votei no Lula. Picareta. Olha aí no que deu. Eu sabia! SA-BIA!

Paralelo ao diálogo e à transmissão televisiva, Baiano seguia passando a máquina zero alta no meu cabelo. Ele e o rapaz do caixa eram os únicos homens que trabalhavam no lugar. Cansado daquela conversinha mole das peruas, rompi o silêncio do lado mais próximo à rua:

- E aí, cara. Será que esse Temer vai mudar alguma coisa?

Baiano continuou cortando. Olhou pra tv e disse, meio indiferente, voltando a passar a máquininha:

- Mudar não vai, né. Vão continuar roubando. Mas é gente nova, são outros esquemas agora, né?

Lembrei que Michel Temer não era tão novo assim. São 75 anos. E, além disso, o atual presidente já foi secretário de segurança pública de São Paulo, deputado e presidente da câmara, além de vice-presidente do país, ainda que decorativo, por 5 anos. Macaco velho de cargos público, ratão de Brasília.


O barbeiro Baiano desconversou. Perguntou se eu queria que deixasse mais cabelo em cima, falando que se cortasse muito não ia ficar legal. Pensei em retomar o assunto, falar nos possíveis cortes do “novo” governo, que o Brasil não vai ficar legal assim… Apenas concordei movimentando a cabeça pra cima e pra baixo.


Do outro lado do salão, com a chegada de uma senhora que carregava um bebê no colo, acompanhada de um senhorzinho, que logo se sentou; a política voltou à pauta. Bem vestida, de cordão grosso no pescoço, vestido de marca e botas de pelúcia, com certeza super macias, ela chegou falando de crise com um ar irônico. O rapaz que tava no caixa foi lá aumentar o volume para que elas ouvissem Temer esbravejar com firmeza:

- Se nos chamarem de golpista, diga 'Golpista é você que não respeita a Constituição'!

Deu pra ver no reflexo do espelho a empolgação das mulheres.

- Como ele fala bonito, gente! Ahahaha

Baiano diminuiu o tom de voz e cochichou pra mim:

- Bom mesmo era o Lula. Quero ver ter outro igual a ele. Num tem! Que fez mesmo, só ele.

- Ainda mais para a classe mais pobre, né?, continuei

- É verdade. Pode ter o que for contra ele, dizer que é ladrão, mas que ele fez ele fez!


Espero que não desfaçam, pelo menos a democracia, pensei comigo. Do outro lado da cidade, no centro, manifestantes começavam a se reunir em um ato contra o impeachment. A polícia começava a cercar a área. Os trabalhadores começavam a voltar pra casa.


Nenhum direito a menos


- E aí, Eduardo. Tá bom assim?, me perguntou Baiano.


Porra, cara. O país nesta merda toda aí e tu me perguntando se tá bom assim…

- Tá… Tá sim. Ficou chique, cara.  


Percebendo minha fala serena ele ainda tentou me animar:

- Aí é bom que cê pode deixar assim, ou pro lado, ou dependendo também, passar um creminho e botar pra cima, arrepiado, sabe?

- Dependendo do governo, né? hahaha


Por enquanto, meu cabelo tá caído e despenteado. Porém, o pezinho agora tá retinho. A vaidosa semelhança com um Brasil temerário, pós-golpe.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Aqui é Praça da Cascata, tru, não Pokemon

Disseram pra eu tomar cuidado. Andar ligado. Tava sendo enquadro o final de semana todo, porque é que dia de semana seria diferente? Os cara num pode me vê de nave, né?

Dá nada, não. Bagulho doido, mundão girando; a tocha passando e o tempo também. Demorei a reconhecer uns rostos em Pinda. Alguns olhares. Mas a cidade tava a mesma fita. Calma no centro. Moiada na periferia. Até que chegou uma base móvel e começou a enquadrar os carros, na esquina da pracinha da cascata. Parece que eles tão caçando algo.

Quem também tava igualzinho era o André. Continua gente boa, o mesmo jeitão. Lembramo umas história naquele cenário vazio. Não tinha churros. Nem o pipoqueiro, dos queijão enorme, tinha ali mais. Farmácia, padaria e o china eram os únicos pontos de comércio abertos.

Atrás da gente, perto de um busto que tem lá - deve ser do Rui Barbosa, sei lá - o pessoal da rua fumava e bebia corote, quase que escondidos pela copa da árvore. Quem passava na praça nem ganhava nada. E, nos bancos, dois casais, de amigos talvez, riam por detrás das bicicletas encostadas no poste.

Só que tinha uma galeeeera mexendo no celular, vidrada mesmo, mais do que o normal pra uma praça tranquila. Quem passava por ela ia ao chafariz e apontava o bendito aparelho. Eles iam, as vezes sorrindo, sempre distraídos. Nem viam os casais, os moradores de rua, os policias, nem eu, nem o André. Olha que a noite tava agradável, hein.

 A gente seguia na ideia. Os caras seguiam, curiosos, com smartphone em mãos. Isso aconteceu em família, com um casalzinho, com pai e filho, com uns moleques de bike, um casal de moto, além das pessoas que vinham, de carro ou à pé, para o centro da praça. E nem era natal, viu.

A simples quarta de comércio fechado parecia um tanto estranha:

- Ahhhhh, foi hoje que liberou o Pokémon aqui pro Brasil, né?

- Vish, então todo mundo já pode caçar...

- Agora que eu entendi esse caras aí!

- Seloko...



Nóis tava apertado, daí eu fui pra casa caçar o que fazer.

E o pessoal continuou colando lá na praça, grudado na tela. Nem aí com a cidade que dorme cedo. Muito menos com a turma da rua que não costuma dormir.

Tomei cuidado na volta. Quando cheguei vi que o Santos é quem ia dormir líder do Brasileirão. Rá. Esse Peixe aí é difícil de capturar. Nada contra a corrente.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Seu Fróis, minha estrela cadente

Essa noite, um pouco mais cedo, fui dar umas voltas nas ruas do meu bairro. Ficar o dia inteiro dentro de casa não ajuda em nada. Precisava respirar o ar da noite, tirar alguma motivação da lua crescente, ou do céu estrelado do Vale do Paraíba... Num momento de distração desceu diante dos meus olhos uma estrela cadente. Linda e efêmera, eu pisquei e ela passou toda apressada, num sopro, pique a vida da gente.

Dizem que quando se avista uma estrela cadente é que a passagem da terra pro céu foi bem sucedida. Nem me liguei em fazer pedido. Pensei se tudo isso era mesmo real. Ela escorreu tão rápido pelo tecido escuro do firmamento que só consegui lembrar de sorrir.

Meu pai se foi num belo domingo de sol. O céu era azul, azulzinho. Da cor dos teus olhos. E fazia uma friaca tenebrosa... A madrugada de sábado foi a mais gelada de todo o ano. Quem sabe de toda a minha vida. Era dia dos namorados. Dia do terrível massacre que deixou 50 mortos numa boate em Orlando, cidade norte-americana que a gente não chegou a conhecer porque não nos deram o visto. Foi também o dia de derrota do Galo frente ao Cruzeiro, de vitória do Porco sobre o Corinthians (seus dois times: Atlético MG e Palmeiras) e do vexame da seleção brasileira contra o Peru, sendo eliminada da Copa América na fase grupos. Logo ele, que me ensinou a amar o futebol...

Foi sepultado em 13 de junho, dia de Santo Antônio, uma das poucas figuras religiosas do qual era devoto e que carregou consigo no segundo nome desde o batismo lá em 1939.


Efêmeras foram também as voltas que eu e a molecada da rua davam na caçamba da Montana, toda adesivada de fogo. A gente ficava brincando no portão de casa, trocando ideia e esperaaaaando o senhor chegar. Não me recordo da maneira como aquelas voltas no quarteirão começaram, mas parecem agora que duravam somente algumas piscadas de olhos, alguns flashs de adrenalina e risada.

Assim como os dias ao teu lado, que passavam depressa em qualquer lugar que me levasse: na oficina, na feira, na casa dum amigo, num restaurante ou, de vez em quando, lá pra Capital: São Paulo. Tudo era novo, contigo tudo era muito intenso. Já eu, ainda era muito menino pra te acompanhar. E logo antes que as estrelas do céu dessem as caras, você me deixava em casa. As vezes, nem ficava para o café...

Bom, acho que cresci um pouco, ainda que bem distante dos teus 1,80. Não te alcancei nem no tamanho do pé, nem no comprimento das unhas. Quem sabe nos cabelos brancos algum dia desses, né? 

Já até me guiava sozinho pelas constelações, mas sua presença continuava essencial pra minha órbita. Talvez por você ter conhecido e morado em tantos lugares, por suas casas serem sempre repletas de mapas, papéis, chaveiros e pneus; eu quis rodar sozinho meus oitocentos e cinquenta quilômetros. Quis mergulhar em águas que você não havia entrado. Sair do tedioso ritmo lento que o relógio marca aqui ao acompanhar o canto dos galos da vizinhança.

Confesso que meses atrás fiquei um bocado feliz com nossa conversa no telefone que quase chegou aos 10 minutos de duração. Recorde oficial! "Vai ver a distância aproxima mesmo as pessoas". Pura ilusão. O celular não capta emoção, nem conecta seus olhos com os meus. Saí em busca de liberdade, contudo, refém das empresas de transporte coletivo, passei a levar 16 horas para lhe dar um simples abraço de segundos. Até porque a gente nunca teve muita paciência para essas coisas aí, né. 

Efêmero memo, aos moldes da nossa despedida, senão eu perderia o meu ônibus.
Breve, como a última ligação, em que eu senti um desânimozinho na tua voz.
Ligeiro, tal qual a estrela cadente que corria no céu.
Passageiro, tipo os pensamentos que sopram na mente de vez em quando.
Que nem a lágrima que escorre no rosto.
Pois o sentimento, esse sim, é eterno. 

Ê vida, que voa!

Para sempre te amarei,
Wanderley Antônio de Menezes Fróis

terça-feira, 10 de maio de 2016

Espetáculo Percussivo

7 e 30, além de ser o que meu relógio marcava quando cheguei no Teatro Álvares Carvalho, é o nome do projeto que acontece todas as terças no local. O de hoje foi a apresentação do Grupo Livre de Percussão (GLiP), que é integrado por André FM, Diogo Costa, Marco Bicaco e Oswaldo Pomar. São excelentes percussionistas que encheram o tradicional teatro da capital catarinense para levar o público, pelas mãos, é claro, a passear pelos diversos ritmos do país, e os ritmos que vão além da fronteira.

O quarteto começou a apresentação com uma zabumba chamando o pandeiro e o berimbau prum baião, em que o vibrafone também chega pra pontuar melodias do Gonzagão. E logo ganhou a galera. Em seguida, eles fizeram dinâmicas de velocidade e toque de baqueta nos tons que cada músico tinha a sua frente. Um quarteto de pandeiros se formou então, dando leveza e carisma pro espetáculo. Eles conseguiram mostrar com agilidade um pouco das múltiplas possibilidades do instrumento, que tocado em conjunto, sozinho, também produz sonoridade interessante.

cadência para 7 tambores

Trouxeram ao palco outros percussionistas e até uma moça do sapateado, que não deixa de ser percussão, né? Uniram a técnica com o bom-humor nas peças musicais apresentadas. O Grupo de Percussão de Itajaí (GPI) também fez seu show à parte, que entre outras coisas, contou com uma orquestra de cajons. No escuro, e com luvas florescentes, eles tocavam juntos, explorando cada parte da mão e da madeira do instrumento.

Rolou conversa de berimbau, troca de ideia entre repiniques, rodinha de reco-recos, mais pandeirada, bastões musicais e até panela foi batida no palco. Mas não era em protesto à corrupção. O coletivo Abayomi de dança e percussão africana agitou a parte final da apresentação. Djembês e dununs preencheram todo o teatro, fazendo com que a plateia até interagisse com uma palminha animada. Ao fim, uma libertadora comemoração musical ficou visível, e audível, é claro.

Um dos membros do GLiP ainda deu o recado que a Escola Livre de Música de Florianópolis vem lutando para se manter funcionando, com qualidade e gratuidade. O grupo de percussão surgiu no ambiente da própria Escola Livre, numa troca entre alunos e professores. É uma rapazeada que sabe que percussão não é só base, não é só sustentação, e é tão musical quanto qualquer outro naipe. Muito melhor, inclusive, que a última peça que eu havia assistido ali mesmo, sob o lustre redondo do TAC.

A plateia pareceu mesmo convencida de que a percussão é a grande protagonista desse novo espetáculo. Aplaudimos de pé o batuque!

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Melting Party



"Não canta nosso samba/ Não gosta de pandeiro/ Veste um tecido nosso/ Diz que é do estrangeiro/ Fala mal do que é nosso/ diz que é brasileiro..."
Falso Patriota - Geraldo Pereira


Feriadinho maneiro, que começa na quarta, precisa ser celebrado, né. Em clima de impeachment e com saudades dos coroa lá em casa que fui passar uns dias no Vale do Paraíba. Cheguei na quinta, véspera de um evento chamado American Party. No facebook eu vi que tava marcado pra uma tarde, num sítio da zona rural pindamonhangabense. Vi também o alto número de amigos que confirmaram presença. Era gente do bairro, das escolas que estudei, era a minha geração...

Um deles insistiu, e como eu já tava curioso memo, paguei lá uma moeda pra conferir o furdunço. Durante o caminho, na estrada que liga o centro a região do Ribeirão Grande, voltei a me encantar com as montanhas da Serra da Mantiqueira. Fazia um calor gostoso, o sol parecia querer se esconder nas poucas nuvens. Enquanto tentava distinguir na paisagem o que é Pinda e o que é Campos, fui me perguntando o porquê dessa galera fazer uma 'festa americana' na roça.

Chegando lá puseram no meu braço uma pulseira feita de papel plastificado e, depois de certa insistência, ganhei um copinho de plástico de tom vermelho ardente e envernizado. Por dentro é branco. Acho que já vi esse copo em alguma outra festa. O copo era o passaporte de uma festa open bar de vodka nacional querendo ser russa, misturada com energético colorido. Mais tarde chegou a opção in inglish da Catuaba. Refrigerante, água e uns drink's, todos com nome gringo, eram vendidos no caixa. A cerveja era Skol, uma das poucas referências nacionais da festa, e foi comercializada pela bagatela de 4 conto, servida num copinho plástico.

o tal redcup

Logo avistei parceiros de uns dias, que falavam alto e davam rápidas goladas em seus copos. Alguns rostos conhecidos e muitos outros que eu nunca tinha visto na cidade. Ou nunca tivesse reparado. Só que agora o estilo deles parecia diferente. Os bonés tectel de aba curvada dos caras eram minoria em relação aos aba-reta. Marcas famosas, claro, ainda que falsas. Era tênis Mizuno, Nike, DC e Adidas. As camisas da Abrercrombie, Ralf Larren, Lacoste; algumas mais largas, outras que pareciam babylook's, eram combinadas com bermudas tectel coloridas. As correntes de prata e as muitas tatuagens contrastavam para o lado de um aspecto mais brasileiro.

A música era eletrônica desde o começo. Confesso que de cara estranhei bastante a galera da cidade agindo como se estivesse numa festa de filme ambientado em faculdade norte-americana. O cheiro de pasto foi me trazendo, aos poucos, de volta ao interior do Brasil, e eu passei novamente a me distrair com a paisagem. Era fim de uma tarde que o sol ia se pondo timidamente entre o bambuzal e as bananeiras do vizinho. No outro vizinho tinha manga madura. E mais a frente: flores amarelas. Com abstração eu até conseguia escutar algumas galinhas lá no fundo.

Só que mudaram o ritmo da caixa de som, que passou a tocar rap. Voltei a olhar pra festa, conversar, andar e interagir. Muita gente já estava bêbada, e tinham me falado que aquilo ia até "quase meia-noite". A todo tempo passavam apressados os organizadores da festa, vestidos de camiseta roxa escrito "BAE" e óculos de sol. Padrão também se achava nas minas, de cabelo alisado e maquiagem.

Muita fumaça ali fora, mas a maconha parece que é mesmo legalizada só no Colorado. Logo um boom-bap estourou nos falantes, e quando eu já achava que viria mais música em inglês, soltaram um Planet Hemp. Ironicamente os brasileiros da festa americana se animaram. Colei junto na pista e vi, atrás do dj, a bandeira do Brasil, partida no meio, emendada com a outra metade da bandeira dos Estados Unidos da América. Senti vontade de beber catuaba. A palavra BAE também tinha uma bandeira ali. A vontade acabou passando...

Fraternidade Beta

Foi pelas tantas que anunciaram no microfone que enfim dariam início ao beer-pong, jogo esse que meus amigos vinham falando sobre desde o início da festa. Eles se inscreveram no face, querendo ganhar a premiação de uma tatuagem. O jogo funciona numa mesinha estilo ping-pong, inclusive com a mesma bolinha do esporte. O objetivo é acertar com a bola os copinhos vermelho do adversário a frente. Se acertam, os oponentes bebem. Se errar perde a vez. E vice-versa. Até acabarem os copos. Ou dar o tempo de jogo. Ou alguém der perda total.

No fim, quem ganhou, mas deu PT, foi o meu camarada. A empolgação veio mesmo quando começou aquela base de Nego Drama... Mudou o clima, trazendo a rapaziada fronteira a dentro outra vez, ainda que numa batida de fora.

o som que salvou

Lendo no sofá de casa O mistério do Samba, horas antes, eu tava com as ideias do Hermano Vianna ainda na mente. Ele fala da influência dos EUA no samba, seja na parte tecnológica, seja na parte musical. De como a indústria cultural se apropriou da música brasileira e agora vende o mesmo estilo eletronizado no mundo globalizado.

Essa cultura de plástico foi importada recentemente, em meio ao neoliberalismo, e consolidada pela mesma elite que antes trouxe o jazz, o fox-trote, o rock. São gerações de uma classe média fascinada por tudo que é made USA. Desde o fim da Primeira Guerra, quando o país lá de cima enriqueceu e passou a fazer uma política de boa vizinhança, isto é, bom mercado, e despejar seus produtos por aqui.

Em tempos de crise político-futebolística, jogo das eliminatórias da Copa e votação na Câmara dos Deputados, ouvi em Pinda - e na festa, claro - muito papo desanimado com o país, com a seleção, com o agora e o futuro. Só que pouca gente se volta pro passado pra lembrar o que a influência americana causou em 1964. Ainda bem que o RAP ainda tem dessas consciência!

Até porque que não tinha só elite na festa, não. Numa cidade carente de iniciativas de cultura e entretenimento, o povo dança conforme a música (eletrônica), e a juventude frita. Depois subiu no palco uma banda que tocou rock, rap e reggae music. A vibe do som ao vivo melhorou. Ainda mais quando chegou uns mano da cena do rap da cidade. Só que logo em seguida, sem cerimônia, voltou a ecoar música eletrônica na chácara.

- Nóis só que se divertir, tio.

Pois é, tudo isso parece bobeira minha. Paranoia - deixa as pessoas curtirem, pô...

Eu já vinha decepcionado com o evento, já querendo tocar dali quando o som acabou. Ou melhor, foi engolido pelos carros no estacionamento.

Encostaram ali golfão, saveirinho, uno, escortêra e mais algum outro equipado pra tocar funk ~que cheirinho de sexo~. Não demorou muito pra reunir ali no meio uma galera dançando a vontade. Eram várias músicas ao mesmo tempo, que confundia aos ouvidos inebriados. Nada que atrapalhasse o gingado. A festa ganhou sobrevida, e nem eram dez da noite.

Minha esperança também ganhara sobrevida. Só não sei se já é tarde.



sexta-feira, 22 de abril de 2016

Boa ação gera gentileza

Na ida do rolê eu vim atento pra descobrir certinho em qual ponto saltar, porque eu até conheço Moreira César, mas desconhecia a goma do moleque. E o mapa que ele tinha mandado pro meu parceiro, pelo whatsapp, era rasurado e feito a mão, não ajudava muito.

A senhora sentada mais a frente no ônibus se levantara para descer. Ela tentava acionar o botão que sinaliza a parada. Em vão. Decerto estava quebrado. A tia ainda tentou alcançar o cordãozinho do alto, que sinaliza também. Puxei a cordinha para ajudá-la. Ela ouviu o barulho da parada solicitada e veio pra perto de nós, na porta. Saltamos os três.

- Deve ser aqui

- E você já fez a sua boa ação do dia né, disse o mano que tava junto

- E já tem uns dia, viu?

De fato era naquele ponto. Encontramos o moleque e a casa dele. Só que estando de busão, tínhamos que voltar pro ponto antes da meia-noite e meia.

A gente até que tentou. Assim que pisamos na avenida o latão passou acelerado. Já era. A noite nos lembrou que seria longa. E a caminhada mais ainda. Em Pindamonhangaba não tem Madrugadão. Nem rola carona. E de Moreira até o centro tem uns quilômetros...

Conformados com a ideia de andar até os pés doerem, nós partimos. A estrada estava tranquila. Não parecia 1 da manhã de uma sexta-feira.

Eu já me distraía calculando o tempo da rota até em casa.. até que um carro preto diminiu no acostamento e parou ao nosso lado:

- Tão indo pro centro?


Vai ver que a boa ação foi tipo uma gentileza gerando outra.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Minha dose matinal de petróleo


Preciso de ti café
Que é pra acordar
Preciso só porque me fizeram acreditar
Que o dia só se inicia após o primeiro gole
Que a vida é sempre sofrida,
Que num se pode dá mole
- Então engole!

O corpo pede
O copo cede
A boca cede
A boca é sede saciada sem dó
No teu pó
Torrado e moído
Passado e, agora, líquido
Que os meus olhos alegam não mais abrirem sem

E liquidado,
Pois, acordado, da cafeína eu continuo refém
A bocejar de manhã
-Aaaaaaaãnh
Como se chamasse teu nome
O pior é quando tu escutas e vem
E nem sacias minha fome
Só me consome!

Forte... que é pra deixar ligadão
Amargo... pois a vida num é docinha, não
Quente... pra entrar em conformidade com a temperatura do meu coração

Que lhe suplica,
Clama,
Chama,
GRITA...
Assim que o néctar derrama,
Jorras dentro da xícara
Sua dose matinal de petróleo.