Cola cum Fróis

Escrevo pela necessidade de me livrar das palavras | @_dudufrois

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

E a campeã do carnaval é...

De fora, talvez eu tenha tido esse ano uma visão além do habitual a respeito dos desfiles das escolas paulistanas. Vi um carnaval da tevê, de forma até um pouco fragmentada, mas estou hoje com a mesma sensação dos outros carnavais de arquibancada: uma mistura de ansiedade pelas notas que virão com a certeza de um carnaval muito bom, superando inclusive minhas expectativas que andavam em baixa pra 2015. Esse ano não fui a nenhuma final de samba. Fui a dois ou três ensaios. Não fui a ensaio técnico. Me senti do alto de meus 8 anos, quando eu acompanhava o carnaval somente quando abria-se a transmissão depois do sempre tão longo Globo Repórter.

Vi uma Mancha abrir os desfiles solta, alegre, brincando o carnaval falando do time que deu origem a escola, o Palmeiras. A comissão de frente era aos moldes antigos, quebrando essa padronização atual de um tripé mais uma dancinha na frente. O samba era gostoso, com dois refrões de fácil memorização. A Puro Balanço segurou a onda, dando ritmo às simples e belas alegorias e fantasias, exaltando sempre o verde.

Aí eu vi a Tucuruvi ampliar a paleta de cores da Mancha, também vindo bem leve. O samba de enredo sobre as marchinhas que marcaram época foi muito bem costurado, entre recortes de letra e melodia já conhecidos pelo povo. A história do carnaval se misturou com as marchinhas relembradas e isso me lembrou aquele desfile bonito da escola em 2001. A batucada embalou tudo isso e foi, junto com a comissão de frente super carnavalizada, o destaque do Zaca.

A vez então era da Tom Maior transmitir a adrenalina que é um desfile de carnaval posto na avenida após um ano de trabalho, na própria avenida. E foi além. Passou por esportes radicais, corridas, amores... Aliás, a comissão de frente deu um show a parte de interpretação cênica, divertidíssima e executada sem exageros. Muito amor. O samba, especialmente do "Vai coração..." até o refrão principal, deu um belo tom melodioso ao desfile que ficou maior.

Chegou Dragões com pinta de campeã, logo impressionando na beleza real das alegorias e fantasias. A comissão de frente também impressionou, não só pela grandiosidade, mas por uma abordagem bem criativa do enredo-viajante da escola. A bateria mostrou outra cara com diversos breques que desenhavam bonito em cima do samba. Samba esse que Daniel Colete elevou o nível fazendo a escola toda brincar na passarela.

E a passarela realmente incendiou...

Em seguida eu vi Rosas de Ouro passar bastante luxuosa também. O enredo era ainda mais imaginário, proporcionando um desfile colorido e repleto de inovações. Desabrochou na avenida uma escola alegre que cantou do começo ao fim um samba mais cadenciado. A bateria acompanhou isso tudo, trazendo suas frigideiras "de ouro" para incrementar a cozinha.

Depois, Águia de Ouro trouxe o Japão em forma de enredo para o Anhembi. Tentando sair do comum apresentado nos desfiles de carnaval sobre o país oriental, a escola se mostrou muito colorida e estilizada. A batucada da Pompéia mostrou que também é de ouro, fazendo aquele swing gostoso que sua levada tem. Mas o destaque desse voo alçado foi a própria comunidade da escola que cantou firme o samba complicado.

Por último na noite de sexta, Nenê de Vila Matilde apresentou Moçambique numa pegada diferente. O belo samba, que trazia certa nostalgia na melodia do seu refrão principal, foi de longe o melhor da noite. Deixou a escola leve e cadenciada, ainda mais com a Bateria de Bamba sustentando tudo isso. A águia mostrou-se altaneira sobrevoando um baobá que, juntamente com a comissão de frente, abriu a escola de forma imponente.

Quem esperou pra te ver... não se arrependeu!

Inaugurando a segunda noite, vindo como campeã do grupo de acesso do ano anterior, a Vila Maria lapidou seus diamantes no Anhembi. A joia principal deste desfile foi, sem dúvidas, a batucada Cadência da Vila, que entrou num andamento seguro e pra trás, fez breque em cima do samba difícil, e terminou a apresentação no mesmo ritmo gostoso. Digna de dez e estandarte. 

Depois foi a vez de chegar Gaviões. Começou logo surpreendendo com a comissão de frente que brincava de embaralhar, construir castelo de cartas, fazer coreografia e acrobacia. Talvez, a melhor do carnaval. O desfile seguiu empolgante, abrilhantado pela beleza das fantasias da escola. Porém, o destaque mesmo ficou com a bateria Ritmão, que veio bem mais cadenciada do que o de costume, mas que não perdeu sua tradição de breques executados no samba. Do baralho.

Aí a tri campeã Mocidade Alegre entrou em cena como favorita. A morada cantou Marília Pêra, passando pelos diversos trabalhos da atriz no teatro e televisão. Sua comunidade, como de costume, deu aula de harmonia e samba no pé. Outro ponto alto da apresentação foram as belas fantasias, incrementadas com maquiagens e adereços, fazendo um verdadeiro carnaval no visual.

É muita ginga no terreiro do samba.

Império veio em seguida sonhando em ganhar o carnaval outra vez. E trouxe sonhadores consigo. Era um puta enredo, que foi abordado muito bem. Mas num desfile onde há a Barcelona do Samba, não dá pra ter outro destaque. De reggae a kuduro, a batucada veio fera desde afinação ao andamento. Outro quesito nota dez da Casa Verde foi o primeiro casal de mestre e sala e porta bandeira, que bailou de verdade. Os componentes desfilaram leves e evoluíram conforme uma escola que briga por vaga lá em cima.

Então surgiu na passarela os Acadêmicos do Tatuapé, querendo provar que a escola já está madura pra voltar nas campeãs. A azul e branco trouxe o ouro como tema e deu show de organização e acabamento. O único erro foi no ritmo de desfile de seus componentes, que pode custar caro à escola em meio a um carnaval tão acirrado. Por segundos a escola não conseguiu fechar no tempo sua apresentação. O samba, com aquele timaço de canto, cresceu bastante.

E sacudindo as arquibancadas como de costume, o Vai-Vai chegou com o melhor samba do carnaval. Uma poesia que retrata as obras que marcaram a vida de uma das maiores cantoras da música popular brasileira, Elis Regina. Com direito a "larê larê" de Maria, Maria; a escola conseguiu empolgar, além do público, seus componentes também. A Pegada de Macaco ajudou muito nisso, com sua tradicional levada acelerada a bateria mostrou que quer voltar a ser nota máxima nesse carnaval. Só pela melodia de seu samba de enredo a saracura já mereceria desfilar outra vez.

E fechando com chave de chuva, a X-9 chegou chegando. Aliterações idiotas à parte, a escola da Zona Norte mostrou um belo desfile no visual e no emocional. O enredo foi desenvolvido de forma alegre e bem-humorada, fazendo até relembrar uma X lá do começo da década passada. Não choveu e a escola não errou. Perfeito para se encerrar um carnaval paulistano tão bonito.

Banho só se for de axé. Ou de samba.

E é isso, em alguns minutos inicia-se a apuração e, toda essa espera se transformará em alegria ou frustração, conforme o resultado das notas e o gosto de cada um. Aposto forte em Dragões, Rosas, Gaviões, Mocidade e Vai-Vai esse ano. Além de Tucuruvi, Águia, Nenê, Império e X-9 que também desfilaram muito bem. Independente da agremiação que comemorar o caneco com chopp a vontade hoje, que ela tenha a humildade de reconhecer que a disputa está apertada como nunca, e que o que decide onde será a festa de logo mais são detalhes que as vezes só o jurado enxerga daquela torre branca horrorosa. O certo é que ano que vem estaremos aqui de novo, com o mesmo sentimento de que não deveria ter acabado o carnaval. Fazer o que, é gostoso porque é efêmero.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pré-Carnaval 015

Inaugurando meus posts em terras florianopolitanas eu não poderia começar falando de outra coisa: CAR-NA-VAL! Carnaval que aliás se inicia hoje, mas que nessa temporada ficou um pouco mais distante de mim por conta do cursinho, da faculdade, dos sambas ruins... essas coisas.

Logo mais adentrará o Anhembi a Mancha Verde, fazendo uma homenagem justa aos 100 anos do Palmeiras - no ano em que o clube completa 101 -, a escola traz um sambinha legal, mas que não empolga. Assim como o homenageado ano passado no Brasileirão, briga pra se manter. Em seguida virá a Tucuruvi falando de marchinhas carnavalescas, um tema importante num carnaval cada vez mais eletronizado. O samba ficou muito bom, alegre, irreverente e facinho de decorar. Tom Maior fala de adrenalina e propõe um desfile inovador, saindo da mesmice dos enredos carnavalescos. Seu samba de enredo tem pontos altos, porém não se sobressai. Aí vem Dragões da Real, destaque na concentração do sambódramo com seus belos carros alegóricos, a escola vem acreditando no título pra esse carnaval. O ponto fraco é o samba, bem padrão. E por falar em samba padrão, a Rosas de Ouro é a próxima, com enredo sobre encantos a escola da Freguesia do Ó também é bem elogiada na concentração e aparenta ser a favorita do dia. Aí vem a Águia de Ouro pra tentar me desmentir. O samba é melhorzinho do que o da co-irmã de sobrenome dourado. O tema é duvidoso, o comércio entre Brasil e Japão, no entanto a batucada da Pompéia tem tudo pra ser novamente destaque. Por fim virá Nenê de Vila Matilde com o melhor samba da noite (e talvez o melhor enredo, vamos ver) pra mostrar que a Zona Leste volta a brigar por título.

No sábado quem abre é a Vila Maria falando de diamantes e, com talvez o pior samba de SP, a escola tenta se confirmar no grupo especial tendo a Cadência da Vila como ferramenta principal pra isso. Seguida da Gaviões que desfilará repleta de cartas e jogos apostando num sambinha interessante pra fazer um carnaval do baralho. Em seguida vem a tri-campeã Mocidade Alegre trazendo Marília Pera para tentar o tetra. Acho que não rola, mas o samba é bom sim. Aí a Casa Verde chega sonhando com o título também, que há nove anos não conquista por sinal, tendo um enredo muito amplo e com possibilidades pra se viajar legal. Destaque pro refrão do meio que é curto e simples, mas que fica foda com a Barcelona mandando um reggae. Depois é a vez do Tatuapé falar de ouro com um samba mais ou menos, que embica pra mais com a interpretação de Wander e Vaguinho. O desafio da escola da leste é manter o alto nível do desfile do carnaval passado, missão difícil. Logo após vem Vai-Vai trazendo simplesmente Elis Regina, simplesmente o melhor samba do carnaval! Um poema do começo ao fim. Com levada pra cima, marca da escola, e uma melodia emocionante a Saracura chega como favorita só por conta dos ensaios que fez. E pra encerrar o Grupo Especial a X-9 chama a chuva pro seu desfile. Espero que se dessa vez chover na avenida a comunidade não desanime como no ano passado. O samba é médio, subindo de nível no refrão do meio na voz do Royce.

No Grupo de Acesso o nível dos enredos melhoram um pouco. Os sambas nem tanto. Destaco o da Peruche, com uma pegada de enredo afro antigo, e o da Leandro sobre Mandela. Em termos de desfiles vale a pena se liga no meu Camisa e na Pérola Negra. Mas claro que Imperador, Colorado, Morro e Independente podem surpreender domingo.

Difícil não se emocionar

Fazendo a ponte aérea, o Rio de Janeiro abre seu carnaval com a Viradouro voltando ao Especial. Niterói ousou e fez um bem bolado com dois sambas de Luiz Carlos da Villa. O resultado no cd é muito positivo, vamos ver na avenida agora. A Mangueira traz as mulheres para seu carnaval, num samba bem bonito, ao estilo Estação Primeira, a expectativa é de um carnaval melhor ao do ano passado. Tem que respeitar! Aí, a tal da reformulada Mocidade entrará na Sapucaí. O enredo traz a pergunta "o que você faria se te restasse um dia?". É ousado e eu acho que combina bem com a Padre Miguel. Mas o samba fica devendo bastante pra quem quiser disputar algo lá em cima. A Vila também tenta mostrar-se diferente do ano passado. Com música clássica e Villa-Lobos no meio a escola teria sucesso se chegasse próxima do nível de desfile que sua co-irmã que irá desfilar antes teve em 98. O samba é bom, mas é ofuscado pelos demais. Quinto a desfilar, o Salgueiro tentará mostrar porque se diz injustiçado no carnaval passado. O samba, falando da comida mineira, fica bem aquém daquele "canta Salgueiro", mas não chega a ser ruim. Também é ofuscado pelo nível da safra deste carnaval. Pra fechar o domingo carioca a Grande Rio busca novamente seu primeiro título. Seu samba é bom e o enredo é muito semelhante ao da Gaviões. Ponto alto é o refrão principal, todo malandreado.

A tradicional segunda-feira de carnaval carioca tem a São Clemente como pontapé inicial. Com um samba menos irreverente e mais homenageador, a escola vem de Fernando Pamplona num enredo curioso a lá Rosa Magalhães. Pode pintar uma surpresa aí. A nova Portela chega como uma das favoritas azul e branca de segunda. Com um Rio surreal a águia vem com uma proposta muito boa de desfile e um samba do nível de seus últimos anos. Talvez o melhor do carnaval RJ 2015. Só quem bate de frente é a Beija-Flor. Com um samba afro sobre Guiné Equatorial a escola pode se reencontrar após o desastroso desfile de 2014. Num estilo valente, oposto do hino portelense, o samba é igualmente nota 10. O desafio ficará pra Ilha, desfilar após duas escolas de peso. Aí que mora a aposta insulana. Num samba extremamente irreverente e carnavalesco a tricolor pode virar sensação deste carnaval com o "gostosa! Fiu, fiu" de seu refrão. A bateria 40 graus também influencia nisso. Uma beleza! Aí é a vez da Imperatriz cumprir um desafio de mostrar que não é uma escola fria. O samba é quente, com dois refrões que fogem do comum. Isso deve dar certo. Além, claro, de ter a igualdade racial como tema, o que geralmente dá bons desfiles. Aí a atual campeã Tijuca, nem tão badalada assim, encerrará a festa. Com algumas mudanças pra este carnaval, a essência permanece a mesma. Inclusive a tradição recente de ter o pior samba do ano, que mesmo assim não chega a ser ruim como alguns de SP. O enredo tem a pegada suíça, e seja lá o que isso signifique, a Pura Cadência vem fazendo a sua parte nos ensaios. A briga tá muito boa!

No acesso, ouvi pouco os sambas. E gostei do que escutei. Enredos maravilhosos. Sem exceções. Fico feliz em saber que as escolas da chamada Série A vêm batalhando firme pra subir de grupo. Que as outras escolas aprendam com eles.

E lá vem ela... não pra deslumbrar a passarela, mas toda prosa!

E como estou em Santa Catarina, por que não falar do carnaval daqui? Aliás, irei assisti-lo hoje, amanhã e terça, já que não tenho saco (e nem tevê) pra assistir na Globo. Não conheço quase nada do carnaval daqui. E estou bem curioso. Hoje quem abre o grupo de acesso é a Palhoça Terra Querida falando da dualidade do bem e mal. Tema bem rodado no eixo Rio-SP. Depois, será a vez da Nação Guarani com uma pegada gaúcha e um samba melhor. Aí virá Império Vermelho e Branco com Sexta-Feira de tema. A quarta é a Acadêmicos do Sul da Ilha, falando do pintor Victor Meirelles
com um samba que parece ser muito bonito. Em seguida, Amigos do Caramuru com a boemia num samba legal, em primeira pessoa, promete um bom desfile. Por fim, Futsamba Josefense pinta o 7, ao estilo Vai-Vai 2002. 

Amanhã, no grupo principal, quem abre é a ascendente Dascuia sobre energia e os quatro elementos. Aí a União da Ilha da Magia propõe um inovador enredo sobre o surf, trazendo também um samba bem bonito e empolgante, além de uma bateria de primeira. Consulado é a próxima num tema sobre o carvão. A Copa Lord vem logo em seguida falando sobre filmes marcantes. O desfile tem tudo pra ser de forte identificação popular. A atual campeã, Protegidos da Princesa, traz um enredo local num samba bom de três refrões, talvez o melhor. Mesmo sem conhecer o carnaval daqui a fundo é fácil apontá-la como uma das favoritas. E enfim a vice Coloninha encerra o carnaval com Yemanjá num desfile que promete emocionar quem é de axé. 

A expectativa é grande. Devo escrever mais pra frente sobre o carnaval de Floripa, que é o qual assistirei ao vivo. Masssssss, se bater muita saudade, deverá aparecer texto também sobre SP ou RJ. Cravo um carnaval de espetáculo em Sampa e de chão no Rio. Espero que não haja as injustiças do ano passado. 

É isso. Saia da internet e bom carnaval!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Partíno...

É com certa saudade antecipada, e com bocado de tosse também, que termino de fazer minhas malas. Tô indo embora de novo. Desta vez pra fora deste estado tucano. Desta vez pra um lugar que eu nem conheço.

Pois é, finalmente, após 8 anos de ensino fundamental, 3 de ensino médio, 1 de cursinho, posso dizer que estou indo estudar algo que faça algum sentido pra mim. Enfim sentar pra aprender algo que eu goste, que possa ser útil a mim, que me faça menos inútil aos outros. Ou não. Se foda. Vou do mesmo jeito. Não é só estudar. É me adaptar a um lugar novo, a uma cultura - isso aí, sem aspas mesmo - diferente, a uma gente que eu não conheço ainda. Vou nessa aí. Quero viver sem obrigações. Sem cumprir nada que não me desperte interesse. Aliás, quero é ver se isso é realmente possível, porque até agora isso não me foi. Vou tirar a prova se sou tão responsável quanto me julgo.

Aproveitei janeiro para estender as "férias" de dezembro. Vagabundear no melhor estilo. Engordei. Dormindo tarde, as vezes bem mal por sinal, acordando mais tarde ainda. Aguardei os resultados dos vestibulares que decidiriam meu 2015. VES-TI-BU-LAR! - ai, como eu odeio essa palavra... Só de saber que não irei mais ouvir falar dela já me faz ter um motivo a menos para não sorrir. Então, acabei passando em alguns, em outros não. Comemorei um pouco. Tive dúvidas, muitas dúvidas. Ainda as tenho. Mas vou seguir meu coração. Tentei me aproximar de amigos que ano passado estavam distantes. Desfazer-me de coisas. Baixar música do YouTube. Me apegar a pessoas. E vi que o tempo transforma muita coisa que a gente chama de amizade. Tentei também ouvir os sambas do carnaval. Me decepcionei outra vez.

É pra isso que existem as mudanças. Pra que você não se acostume com uma rotina desagradável e possa sempre ter aquele planejamento, lá no mundo das ideias, de que alterando o cenário da peça o roteiro e os atores acabam sendo diferentes também. Sei lá. O Brasil-são é tão grande e eu aqui preso em SP. Sem perspectiva de água. De ar limpo. De carnaval bom (e barato). Ah, tô fora. Se a melhor coisa é poder viajar e se livrar do estresse de São Paulo, por que não fazer da vida uma longa viagem com algumas voltas e escalas estratégicas? Hein?

Se não der eu volto. Se der, volto também. Não sou de desistir fácil desse planejamento de uma vida inconstante. Só pra constar, aos amigos - só os verdadêro - que quiserem me visitar em Florianópolis, minha nova casa estará sempre aberta, basta trazer cerveja!

Até algum dia.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Três pássaros que se foram...

Longe de dar uma de grande imprensa com uma super-mega-foda-retrospectiva do ano, vim aqui apenas relembrar um pouco do que passou. Ou melhor, de quem passou. E não vai mais voltar. Reparei que, assim como o ano passado, 2014 levou consigo gente talentosa que me influenciou de alguma maneira. A lista, desta vez pequenina, é outra vez musical, embora o ano tenho sido bem mais cruel com os escritores. Até queria escrever sobre Rubem Alves, Ariano ou Garcia Marques. Mas ainda não li um só livro desses caras, então nem tenho muito o que dizer. Abaixo, segue um relato pessoal sobre cada um que se foi, deixando muita coisa boa pra se ouvir.

5 - Janeiro. Já no início do ano, falecera Nelson Ned, cantor que ganhou fama nos anos 70. Por ser baixinho e ter uma voz potente, Ned chamou atenção do público ao cantar, em sua maioria, músicas de amor. Quem é mais velho já deve ter dançado agarradinho alguma canção do rapaz. A mais famosa de todas, que ainda hoje é sucesso em barzinhos daqui do interior, e todo mundo conhece é Tudo Passará. Acredito que toque muito em Sampa também, porque tem uma galera numerosa que curte um brega na capital. A canção traz um ar melancólico de desilusão amorosa e ao mesmo tempo nostálgico por ter marcado época. Com certeza muita gente já chorou ouvindo esse refrão de melodia grudenta, hahaha. Um clássico, né?


8 - Maio. Seguindo na linha de marcar época, e mais ou menos nos tempos de Ned, Jair Rodrigues deixou seu nome na história da música popular brasileira. Num estilo diferente do samba convencional, Jair caía tanto prum lado mais swingado, quanto pro lado social. Mas não se limitava a gêneros musicais. Dizem até que o sambinha Deixa Isso Pra Lá, outro clássico da música nacional, foi uma espécie de primeiro RAP brasileiro, por ser bem mais falado do que cantado. Mas seu maior sucesso, gravado inúmeras vezes por cantores dos mais diversos estilos, também não é um samba. Disparada tocou no rádio, no festival da canção e no coração do Brasil levando uma mensagem de um sertanejo desesperançoso com a realidade dura. A letra é forte, além de ter uma das introduções mais famosas dentre os clássicos nacionais.



7 - Setembro. E pra fechar com samba, vou mais longe no tempo ainda. Conhecido desde os anos 40, Miltinho foi voz de obras irreverentes do autêntico samba cantado em rodas cariocas. Lançou no rádio importantes compositores de qualidade. Seu sorriso, seu bom-humor e seu célebre bigodinho - que um dia eu chego lá - são a marca do Rei do Ritmo. Mulher de Trinta, imortalizada em sua voz, tenta ganhar no papo uma mulher mais madura. Simples, o sambinha é envolvente e fácil de guardar. E Miltinho muito tem a ver com isso.



Não poderia também deixar de saudar Eduardo Coutinho e Roberto Bolaños, referências no audiovisual. O mexicano Bolaños pelo humor singelo e muito inteligente, sem recorrer a estereótipos sociais. Marcou gerações com seus seriados Chaves e Chapolin. O brasileiro Coutinho expôs sem hesitar a realidade de um país subdesenvolvido por meio de documentários. Meu xará, profissional da mídia, é simplesmente um dos maiores nomes do cinema nacional e deixa um legado importante a quem se interessa por boas histórias reais.

Que o ano que virá semana que vem seja menos rigoroso com a arte!


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Vortando...

E eis que, aos 45 do segundo tempo, eu retorno a este templo de palavras soltas sem nexo. Pique o chute do Thiago Ribeiro, naquele nosso último jogo, pra redenção suína, eu retorno a casa, sem marcação, pra marcar esse golzinho feio de pelada de quebrada antes que o ano acabe e os fogos de artifício, cheio de cores e efeitos no ar, decretem o final dessa partidinha.

E não foi jogo ruim não, rapá! Aaaaah, o do Santos x Vitória foi sim... Aliás, essa temporada foi dura, viu. Fiz a pré-temporada em Pindamonhangaba, me despedi e, logo no carnaval, me joguei pra Sampa. Matei aquela vontade de morar numa cidade grande, sair o fim de semana todo, conhecer gente nova, ter teatro e padoca na esquina da casa... É bem mais prático, claro. Mas é custoso. Nesse tempo em que fui só mais um cidadão paulistano tomei conhecimento do preço dum pão na chapa e um pingado. De umas cervejas geladas em eventos de rua, inclusive. Além de deixar por aquele solo de José de Anchieta meu celular, meu notebook e meus documentos. Porém, colhi muita coisa de lá também.

Aprendi a pegar busão. Louvei o app de celular que indica se ele tá vindo. Agradeci as faixas de ônibus diariamente. Senti falta da minha bike, muita falta. Não sei se dei azar, mas minhas linhas de ônibus pareciam as piores da cidade - ouviu 7725-10? Aprendi a estudar no busão. Valorizei meu tempo naquela cidade de sujeitos atrasados. Economizei um tanto d'água. Adquiri ainda mais raiva de toda a crew do Geraldinho. Me empolguei e depois me decepcionei com uma política mais "arejada". Conheci lugares fantásticos. Mais que isso. Conheci pessoas fantásticas. E por mais que eu passasse o resto de minha vida lá na capitar, isso numa otimista previsão longínqua, não conheceria os bons lugares e pessoas suficientes daquela selva de pedra. Sem contar a oportunidade que eu tive esse ano de conhecer lugares e pessoas pelo Rio e por Floripa.

Deixei, em 2014, pra trás, pessoas para rever, lugares para revisitar, uma quadra na Barra Funda pra voltar logo logo, um samba pra firmar e uns rolês que não esqueci que estou devendo, viu? Quero, e vou, dar continuidade a tudo isso, só que lá pro ano que ainda virá. Assim como, nesse restin de ano, tô revendo muita coisa boa aqui em Pinda. E ao mesmo tempo descobrindo minha cidade de outras formas. Desconstruindo uma visão que eu tinha ano passado. Ficar distante por um tempo é bom, que se há algum sentimento mais forte ele se aflora em meio a essa distância, e volta muito mais gostoso, mais valorizado.

Agora, ainda não quero morar aqui. Tal como na mesma época do ano passado, não sei pra onde vou. Quero me jogar pro mundão outra vez. Ir além de São Paulo, já que o Brasil é tão grande, né? Dilma, libera a verba, que pralguma federal desse país eu vou, ah se vou!

Té logo, Sum Paulo

Mas eu vorto.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A Copa das Copas

Sim, o país é carente de serviço público de qualidade e obras sociais. Sim, estamos muito longe de alcançar uma igualdade plena nos direitos entre os nossos cidadãos. E sim, o momento político atual clama por revolução. Porém, negar o sucesso organizacional de uma Copa do Mundo em nosso país é ignorância. Excluindo-se os desastrosos acidentes na construção dos estádios e a desumana remoção de famílias das áreas de obras... E, claro, descontando a polícia violenta que está longe de possuir o preparo necessário para lidar com manifestante/jornalista, efetuando, inclusive, prisões sem fundamento... A Copa valeu.

Seria mesmo a Copa um evento necessário ao Brasil?

Não pelos lucros astronômicos que construtoras, canais de televisão, marcas de cerveja/refrigerante, a famigerada Fifa e diversas outras empresas tiveram. Mas pela festa. O Brasil esteve em evidência, e quem teve coragem e disposição pra cá conhecer, veio. E gostou. Conversei com diversos estrangeiros que enxergam um Brasil diferente do nosso. Alegre. Festeiro. Liberal em alguns momentos. Conservador em outros. Muito custoso nas despesas básicas, realmente. Mas também muito solidário em cada pessoa. Tive uma impressão excelente dos visitantes que recebemos. Tenho certeza que foi recíproco.

E quanto ao futebol... Ai o futebol, rs. O futebol rolou. Protagonista, o esporte mostrou seu alto nível. Vieram jogar em nossos gramados jogadores excepcionais. Únicos em suas equipes. Uns acabaram com a Copa mais cedo, como o estranho atacante Suarez. Outros, tiveram sua Copa encurtada, como o azarado Neymar. Seleções grandes e repletas de estrelas ficaram pra trás logo no começo, como: Espanha, Itália e Inglaterra. Merecidamente. Seleções sem nenhuma tradição fizeram bonito com a bola, como a Argélia, a Colômbia, os EUA, o Chile e, claro, a queridíssima Costa Rica! Merecidamente, tambien. Como no! Rolaram bons jogos. Dos que eu vi, cito: Alemanha x Gana; Brasil x Colômbia; Espanha x Holanda; Austrália x Holanda; Chile x Espanha; França x Suíça; Alemanha x Portugal; Uruguai x Itália; Itália x Inglaterra; Costa Rica x Uruguai; Costa Rica x Itália; Costa Rica x Holanda; Alemanha x Argélia; Argentina x Suíça... entre outros. Nem se compara com o nível de nossos campeonatos nacionais. Nem se compara mesmo! Dá até um certo dó prever quais os futuros jogadores que pisarão nestes gramados tão bem cuidados.


Vale do Anhangabaú, sendo palco de alegrias e decepções.

Já em relação ao Brasil, acho que fora um erro desde o começo. Talvez lá em 2007 com o Lula também fora cometido um erro. Mas o erro real, ocorreu desde a saída de Dunga do cargo de treinador. Mano não conseguiu administrar o elenco, que não é fraco. Felipão, às pressas, teve um sucesso consagrante logo no início de sua volta, com a Copa das Confederações, ano passado. Depois daquilo, não tinha como nem porque mudar. Estava dando certo. E parou de dar. O ataque não se acertou mais. A defesa até que começou a Copa bem... Mas as laterais e o meio campo nem pareciam os mesmos. O rendimento dos jogadores não caiu, despencou. O que falar daquele Fred que estava voando? Daquele Jô que entrava e anota um gol? Daquele Paulinho que defendia bem e atacava com precisão? Daquele Daniel Alves veloz que apoiava o ataque bem? Do xerifão Luiz Gustavo? Do Oscar que parecia encontrar seu futebol na seleção? Nada disso vingou nesse mundial. Não acredito que seja pressão, influência externa ou obra de um treinador ruim. Talvez uma Confederação de Futebol mais transparente ajudasse também. Acredito que o momento passou, e que o treinador não foi capaz nem de dar continuidade ao título de 2013, nem de propor mudanças na forma de jogar. Felipão insistiu naquilo. E naquilo fez uma Copa ruim. Ganhou de uma Croácia de virada e com a ajuda do juizão japonês. Empatou com o México numa partida travada. Goleou a fraca seleção de Camarões, é verdade, mas levou um gol bobo também. Contra o Chi-Chi-Chi-Le-le-le, sofreu, quase sendo eliminado na prorrogação e tendo em Julio César a redenção. Com a Colômbia, fez sua melhor partida. Não menos disputada. Nem um show de futebol arte. Um jogo duro, que o Brasil mostrou merecer a vitória, mas viu o craque do grupo ir embora de maca. Aí nas semi-finais... Desabou toda estrutura do time, que fez a pior partida que eu já tinha visto de uma seleção brasileira. Uma tática ineficaz, se aliou a um despreparo técnico, que juntos ocasionaram um apagão futebolístico! Parecia a pelada aqui do bairro.

Minha escalação seria essa: Neuer (ALE) - Lahm (ALE)  - Hummels (ALE)  - Boateng (ALE)  - Blind (HOL) - Mascherano (ARG) - Schweinsteiger (ALE) - Kross (ALE) - Robben (HOL) - Messi (ARG) - Muller (ALE)

Alemães erguem a taça da Copa do Mundo, após vitória no Maracanã
Time da Alemanha, campeão do mundo em futebol e simpatia.

Ontem, eu perdi a final. Aliás, eu perdi vários jogos. Alguns eu perdi e fingi assistir pra comentar aqui... (hahahah, mentira!). Muitos, eu vi pela metade. Outros tantos eu acompanhei completamente bêbado. Alguns em casa, outros na casa de um amigos. Muitos nas ruas da Vila Madá, outros tantos na Fan Fest. Uns pelo rádio, outro pela televisãozinha da padoca... Ouvi comentários mil. De radialista dizendo que a Costa Rica não assustava ninguém naquele grupo, à uruguaio chapado querendo discutir aquela final de Libertadores em 2011. Escutei desde xingamentos inúteis para a presidente, à comentários inteligentes dos gringos sobre o futebol apresentado. Aliás, descobri que gringo entende mais de futebol do que brasileiro. Brasileiro gosta de festa, de beber, de comemorar a vitória. Os estrangeiros que eu vi faziam comentários mais fundamentados até que muito comentarista esportivo de emissora grande por aí. Ah, como é bom esse choque cultural.

Por fim, fica a sensação de festa encerrada. Não sei pra você, mas pra mim foi a Copa das Copas. Sem ter sequer chegado perto de uma arena sede dos jogos, eu vi uma Copa muito interessante. Sem ter o glamour das câmeras, eu assisti a alegria ser personagem principal de um jogo predominantemente limpo. Cerveja cara à parte, a confraternização é o principal elo entre tudo isso. Brasileiro, ou não; admirador de futebol, ou não; eu vi uma cidade vibrar, torcer junto ou contra, sem enxergar fronteiras. Valeu, São Paulo. Dei um tempo nos estudos, mas consegui me divertir. A Copa foi aqui. E foi muito bem.

Maracanã jogo final Copa do Mundo (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)
E quem torceu contra a Copa aqui, não foi feliz.

Agora é libertar quem foi preso indevidamente... E construir um país bem estruturado ao redor das Arenas. Sem terceirizar, por favor.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Brigando com o tempo na Cidade Cinza

Estudando fora, longe de casa, um relógio de pulso seria bem-vindo! Provavelmente foi isso que minha mãe pensou ao me dar relógio digital quadradinho, a prova d'água, todo preto, bem simplesinho. Estilo aqueles de dez reais que você compra na feirinha da cidade, sabe? "Mostrando as horas, tá bom" - deve ter imaginado ela. E me deu. Só que com o mundo de hoje girando ao redor dos celulares e smartphones, quem é que precisa de um relógio pra ver as horas? Eu. Que perdi o radinho mês passado. Passei a usar relógios não mais como um simples acessório visual.

Além daquele que ganhei de minha mãe, eu tinha lá guardado na gaveta um outro: vermelho, de ponteiros, bem mais complicado de ler as horas, só que novinho também. Bem mais bonito. Passei a usá-lo pra ir estudar, pra sair à noite, sair pra comer... Dificuldades com ponteiros à parte, aquele objeto vermelho começou a fazer parte da minha rotina. 

Até que em um dia normal, apressado pra sair, acabei mexendo na gaveta pra pegar lá no fundo alguma coisa como uma balinha de hortelã ou as chaves da porta. Vi o tal relógio preto. Agarrei-o com firmeza e saí depressa. Deixei, sem querer, o meu querido relógio vermelho em casa. Usei o preto, o feiinho. "Fazer o quê, né?" Já era fim do dia quando eu fui perceber que aquele relógio preto que eu nunca havia colocado no pulso estava 10 minutos adiantado. Pensei: "grande coisa, o que dez minutos podem mudar na minha vida?" E joguei-o em cima da mesinha do quarto. E por lá ele
ficou.

oh o naipão do bagui

Aí, após belos dias se passarem, em meio a pressa cotidiana, estava eu atrasado, outra vez. De férias, iria pegar ônibus pra Pinda. Descansar de Sampa, da cidade grande, do clima de festa e agitação que envolve a Copa do Mundo na capital. Comprei a passagem on-line, e pra não perder o busão como na semana passada, eu ia ter que sair logo de casa. Sei que se eu o perdesse, ficaria na rodoviária algo como duas horas até o próximo sair. Isso, se caso eu ainda conseguisse trocar a passagem. Do jeito que aquela empresa de passagem é... Fora o jogo da Argentina que eu nem ia vê por estar na estrada. Além de perder também toda a tarde naquele agoniante Terminal Tietê, eu perderia a noite, chegando tarde até pra dá um pião. Sem celular, então, mano. Sem poder ouvir uma música no foninho... Ah, eu tinha que correr!

E corri memo. Peguei a mochila, mordi alguma coisa e peguei o relógio que vi na frente. Saí mastigando, trancando a porta, ajeitando o relógio no braço, limpando a boca, trancando o portão e vendo as horas. Não faltava muito, não. Subi até o ponto do ônibus, que nunca passa quando a gente precisa. Enquanto eu pensava na possibilidade de comprar uma água no bar da esquina, ele veio vindo. Devagar. Cheio. Pudera, dia de jogo de Copa em Sampa... E seu destino era a badalada Vila Madalena. Lá peguei o metrô, enfrentei fila pra por crédito no bilhete e fila pra passar na catraca. Desci no apetite as escadas rolante pela direita. Me sentindo um paulistano, tio. Não adiantou nada. Tive que esperar do mesmo jeito. Quando veio o metrô, eu entrei já fazendo os cálculos do intervalo arredondado quanto perderia de uma estação pra outra e nas baldeações, junto com os minutos que me restavam. E eu ainda teria que imprimir a passagem que comprei na internet. Aliás, eu não sabia nem onde faria isso. 

Cada vez que eu olhava as horas, eu me desmotivava. Acho que o metrô da cidade de São Paulo nunca tinha andado tão devagar quanto naquela tarde. E as estações pareciam não acabar. Fui fazendo mais cálculos e vi que os 20 minutos que eu tinha antes, tinham virarado 15, já se tornaram 10. Fechei os olhos. Me imaginei chegando depois do horário de partida do ônibus. Me veio a cabeça os longos 120 minutos que eu passaria sentado naquelas cadeiras duras do terminal. Talvez com fome e sem grana. Assistindo a tarde ir embora. Guardando energia e inutilizando esse dia. UM DIA. Que tem 24 horas. E que eu não as haveria usado pra nada, a não ser me locomover míseros 150 quilômetros. Quem anda isso num dia todo? Se eu tivesse ido caminhando de mochila, compensaria mais. Não gastaria essa grana. Apreciaria uma paisagem, um ar puro. Poderia parar quando quisesse. Até pegar uma carona. Chegaria antes... Arghhhh!

Até que já quase sem esperanças, tentando me acostumar com ideia de viajar só no finalzinho da tarde, ao olhar mais uma vez pro meu pulso, me perguntei "por que diabos eu vim com esse troço?" Lembrei da minha mãe, do camelô que deve ter vendido pra ela, do outro relógio mais bonito, do celular que eu não tinha mais, dos dez minutos... DEZ MINUTOS!!! Era isso! Eu tinha mais dez minutos, e num contava com tal bônus. Era como morrer logo após passar num check-point no Crash. Como ser salvo pelo herói quando o vilão do filme já lhe perguntava seu último desejo.

Um sorriso logo surgiu no meu rosto. Perguntei pro cara ao lado as horas, só pra confirmar. Confirmei. Tudo bem, ele deve ter me achado um imbecíl perguntando as horas de relógio no braço esquerdo. Respirei fundo. Nem liguei. Agora sim as minhas contas batiam! A estação do Tietê se aproximava. O metrô parecia andar mais depressa. Saiu do subterrâneo dando vista ao céu acinzentado. Vi uma marginal cheio de sujeitos iguais a mim: apressados. Brigando contra o relógio. E vi também que desta vez eu iria vencer. 

Venci. Me senti de volta para o atletismo, numa competição lá no João do Pulo. Passei todos no corredor do terminal. E olha que ninguém anda devagar naquele lugar. Peguei a passagem, desci a escada de três em três degraus e fui o último a entrar no ônibus. Ouvi algo do tipo:

- Tava só esperando você, jovem, hahaha - do motorista.

Sentei no meu lugar. Estava suado. Ofegante. Olhei pro meu pulso e sorri outra vez. Fui arrumar o relógio pra hora certa. Pensei melhor... Desisti. Agradeci minha mãe em pensamento. E prometi nunca mais sair atrasado pra pegar ônibus, nem reclamar dos presentes dela. Afinal, mãe sempre sabe o que faz. 

domingo, 25 de maio de 2014

A cultural ganhou de novo!

Exato um ano após meu post a respeito da Virada Cultural de número 9, eu venho novamente fazer meu relato sobre o evento. Dessa vez sob uma outra ótica, um outro contexto. Agora como morador da cidade de São Paulo, e não mais como um "turista cultural do interior". Como eu já estava exausto no sábado da virada, resolvi não virar outra noite. Com isso, não pude aproveitar tão bem o evento, logo, o texto tende a ser um pouco menor em relação ao do ano passado.

Também este ano, eu li nos jornais e ouvi falar pelos busão da cidade que, a Virada estava muito violenta. Ou melhor, que sempre foi. Muitos já ficaram com medo de comparecer na madrugada. Outros, nem de dia vão. Isso vai criando uma imagem estigmatizada, vai distorcendo a função da Virada Cultural. Não sei se pela imensa maioria de notícias ruins sobre ela, ou se pela insistência da Polícia Militar em acabar com tal evento; uma parte população aos poucos vai se afastando dessa festa tão ampla. Isso não seria surpresa se ocorresse apenas entre as camadas mais ricas, mas o curioso é que o medo agora também vem rondando os mais pobres. 

A violência, portanto, afasta a população da rua. O descrédito com quem deveria proteger essa mesma população não ajuda. Mas eu reforço o que disse ano passado: a violência está presente diariamente em São Paulo. E no Brasil. A Virada Cultural só transporta essa violência das partes periféricas para o centro. Aí, com câmera gravando e gente por todo lado, ela fica muito mais evidente. Brigas, arrastões e assaltos já fazem parte do cotidiano de quem mora por aqui. Infelizmente a Virada não é uma exceção. 

Do palco pro público. Do alto pra República toda.

A programação dessa décima edição trouxe um leque enorme de opções, agradando a todo tipo de público. Teve rock, eletrônica, teatro, apresentação no Teatro Municipal, circo, cinema, sarau, funk, mpb, reggae, música internacional, stand-up, atração infantil, parte gastronômica, Sesc's com diversos shows... Como sempre, muita coisa interessante pra apenas 24h. Uma pena eu não ter ido a nenhum desses aí. Aliás, uma pena também cancelarem shows por conta da chuva de granizo que houve no dia de domingo, atrapalhando toda a parte elétrica dos palcos. 

Agora, meu depoimento pessoal do evento fica baseado em três apresentações, apenas. A começar pelo início da noite do último dia 17, com a abertura da Virada; no palco do Samba, na Estação da Luz, o riquíssimo talento histórico da Velha Guarda do Camisa Verde e Branco. São mais de cem anos de história de carnaval que essa entidade tem. Imagine então a experiência desses malandros de terno verde e chapéu branco... É muita história pra contar. E é muito samba de raiz também. Foi executada uma seleção de canções antigas, bem regionais, trazendo à mostra a singularidade do samba paulista. Esses sete bambas, acompanhados de um time de batuqueiros, embalaram o público que aos poucos começava a sambar pra espantar o frio. Depois, eles ainda mandaram antigos sambas-de-enredo do Camisa Verde, com direito ao hino e tudo. Acho que faltou nessa virada algo relacionado às escolas de samba, blocos e cordões carnavalescos da cidade. Não é só no carnaval que eles existem. Mas é só no carnaval que eles aparecem. A velha guarda do Camisa mostrou que as agremiações têm todas uma belíssima história de amor para com o samba por de trás do espetáculo de fevereiro. Um espaço maior pra esse tipo peculiar de samba seria bem válido, já que em São Paulo essas escolas não possuem a visibilidade que possuem as do Rio de Janeiro, por exemplo. Enfim, o batuque ali durou pouco mais de uma hora e foi uma delícia para encerrar minha noite. 

A história do samba de São Paulo passa por esses caras

Uma cena triste, porém, me chamou atenção no local: um sujeito, visivelmente bêbado gritava coisas incompreensíveis ao longo do show. Ele dançava, subia na grade, caía, mexia com as moças... Depois, chegou outro. Não sei se se conheciam. Mas começaram a dançar (sem ritmo algum) juntos. Lamentável ver o efeito das drogas em cidadãos que pareciam mesmo gostar de samba. Como a Virada Cultural é para todo o público, não podiam retirar o sujeito chato que não ficava quieto. O episódio serviu pra expor quanta gente está "perdida" pelo centro de São Paulo. Com ou sem Virada por lá.

Já no outro dia, bem cedinho, eu acionei o despertador e compareci para conferir um show de rap: Dexter e MV Bill na República. Nessa mesma República, na outra Virada, há dois anos, eu já tinha visto o show do Dexter, também numa manhã de domingo. Acho que fazia pouco tempo que ele havia saído da prisão, e aquele era um dos primeiros shows dele em liberdade. Foi muito emocionante. Me marcou de verdade. Agora em companhia do Bill, não tinha como ser ruim. Apesar do atraso e do tempo sem graça - até porque eu também me atrasei - o público chegou junto. Era difícil circular ali. Até que o DJ soltou o play, a base de 'Soldado que Fica' se iniciou e, para a surpresa geral, quem entrou de mic na mão foi o Dexter. Depois, Bill cantou a música também. Aí eles intercalaram as canções. Houve uma troca bem legal no palco na qual várias vezes um cantou parte da música do outro. Meu destaque vai pra Kmila CDD interpretando 'Falcão' com uma força na voz que realmente foi de arrepiar. 

Música inicial do show

Lá me chamou atenção um outro episódio. Enquanto Dexter e MV Bill cantavam, algumas pessoas da plateia se aproximaram mais do palco. Um rapaz tentava colocar um molequinho lá em cima - provavelmente seu filho. O segurança mandou descer o moleque, que logo começou a chorar. Mais dois seguranças logo subiram no palco e passaram a ficar a frente das caixas de som para impedir qualquer contato do público com o palco ou com quem lá em cima estivesse. Após a música que estava sendo executada acabar, Dexter pediu aos seguranças que se retirassem, alegando confiar totalmente em seu público, dizendo ter certeza que nada de prejudicial iria acontecer ali. O mc prosseguiu o discurso dizendo que se alguém ali provocasse algo ruim, o acontecimento seria um prato cheio pra mídia, no dia seguinte, estampar nos jornais que palco de Rap não dá certo, que é coisa de marginal. Pediu, então, a quem estava mais próximo que ninguém subisse no palco. Disse que ninguém ali iria morrer. O público atendeu, e respeitou. Dexter retribuiu o ato cantando uma música lá embaixo, no meio da galera. Alguma músicas depois, aquele mesmo molequinho que antes estava chorando, foi colocado no palco novamente, dessa vez ao lado do Dexter, e aos poucos foi sorrindo timidamente, já que estava num palco pra umas 5 mil pessoas. O clima daquela manhã foi lindo, totalmente leve e de paz. 

Ainda mais porque em seguida, viria ao palco o Projeto Nave. Claro, que também com certo atraso. Porém, muita gente - assim como eu - emendou o show anterior nesse. Rolou uma vibração legal na República. Uns caras dividiam vinho com um provável mendigo. Um outro provável mendigo dividia o baseado com outros caras. Um grupo ali fazia uma espécie de freestyle. Um cara vendia cerveja e lança todo bem-humorado. E o DJ soltava só os clássicos do rap lá de fora. O Projeto começou a tocar, e junto a eles vieram váaaaaaarios mc's. De cabeça, eu me lembro do Rincon Sapiência, do RAPadura, do RedNigaz, do Marechal, do Xis, de um mano do Síntese, de gente do SNJ. Enfim, só maluco de qualidade. Não eram tão conhecidos, mas mostraram talento e flow. Ficou pequeno o palco pra tanta gente. E Virada também é isso, um híbrido de espaço pra quem tem uma legião de fãs e pra quem tá chegando agora. Não pude, infelizmente ficar muito tempo, então assim que o Projeto Nave encerrou seu último groove, eu fui embora da Virada. Pretendia, sim, voltar depois, mas a chuva me desestimulou.

O balanço que ficou foi (como sempre) positivo. Não vi nenhuma briga. Não vi nenhum roubo. Não vi nenhum arrastão. Não vi violência. Mas não serei ingênuo de afirmar que não houve nada disso. Sei que teve casos sim, que eu felizmente não presenciei. Reafirmo que não vejo insegurança maior na virada do que numa segunda-feira comum, na volta pra casa depois da aula. Acho que as atenções deviam se voltar muito mais pra parte boa da virada, do que pra casos de polícia. Eu não vi site nenhum contar sobre o clima que estava nos outros palcos, se as pessoas estavam sorrindo, se divertindo... Inclusive, é mais um motivo para tomar coragem e vir pra rua ver e sentir com o próprio corpo. Sem se basear em colunista de jornalão. Ano passado, após a virada eu cheguei em casa com uma sensação de que o povo é muito grande, e que a cidade é toda nossa. Imaginei esse povo tomando consciência do poder que ele tem. E não é que dias depois esse povo se conscientizou. Espero que esse mesmo povo jamais saia da rua, que é o lugar de quem vive a cidade. Sem medo da rua. Deixa isso pra quem está lá no poder. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Embolada de Exílio

Minha terra tem palmeiras,
Tem pardal e sabiá.
Tem cascata e cachoeiras
E o mais brilhante luar.

Minha terra tem ar puro,
Céu azul, fruta no pé.
Em meu bosque não há muro,
Cabe "homi", cabe "muié".

Cabe quem quiser chegar,
Cabe o povo lá da praça:
Povo "bão" de prosear.
Minha terra tem mais graça!

Graça aqui é achar tempo,
Procurar chegar primeiro,
Prosseguir sobrevivendo...
Teu tempo vira dinheiro,
Teu prazer torna fumaça:
Seu prazer é passageiro.

Não deixe, Deus, que a essência
Se acabe no meu lugar.
Não permita que meu Vale
Imite o "pogresso" cá.
Que a fumaça da metrópole
Não paire sobre meu ar!

Vale... Ah, se vale.