Cola cum Fróis

Escrevo pela necessidade de me livrar das palavras | @_dudufrois

sexta-feira, 16 de março de 2018

Ano de eleição ou ano de copa?

Recém chegado no ambiente carioca eu brotei pra ver um pouco do jogo do Flamengo na Liberta, ouvir o som das mina e tomar aquela gelada. Cheguei na Cantareira tava rolando um baile só com dj's mulheres. Tocavam uns funk relíquia tipo Mc Marcelly, Valeska e Tati Quebra-Barraco. Ao redor, tinha uma porrada de vendedor ambulante com seus gorós, chicletes e cigarros; além dos bares e carrinhos de lanche que em suas tvs exibiam o jogo da Libertadores. Bolei um pra entrar no clima. Enquanto isso, lá no Equador, o Flamengo empatava sem gols com o Emelec.

Traguei o baseado, matei a cerveja e deixei a ponta de lado, ali memo onde eu tava sentado. Na praça algumas crianças brincavam, suas mães ali perto, um morador de rua descansando atrás de mim, vários catadores de latinha e os jovens universitários que se divertiam, gastavam grana e usavam suas paradas ao livre. Reparei numa menininha vidrada na tela do celular da mãe. Ela chegou bem pertinho de mim, andando e olhando pra tela, devia estar jogando, distraída, nem percebeu os meus olhares. Assim como eu nem tinha percebido o lance do gol do time equatoriano.

Um silêncio tomou conta do entorno da praça. Poucas comemorações de torcedores rivais. E, na parte que eu tava, a galera parecia bem mais focada em dançar, beber, fumar e girar bambolê. Não colei lá no meio, fiquei de canto, mas deu pra ouvir quando a mestre de cerimônia pegou o microfone para informar às pessoas sobre o assassinato de Marielle Franco e seu motorista Anderson Pedro, no bairro do Estácio, quando voltavam do evento 'Jovens Negras Movendo as Estruturas'.

MARIELLE VIVE!

O carro em que eles estavam foi alvejado por ao menos nove disparos, todos em direção de Marielle,  no banco do carona. Socióloga por formação e cria de favela, ela foi a sexta vereadora mais votada nas últimas eleições municipais do Rio de Janeiro com 46,5 mil votos, pelo PSOL. Recentemente, Marielle havia assumido o cargo de relatora da comissão da intervenção militar na câmara municipal. Ela também havia denunciado o abuso de poder do 41o batalhão da PM, já conhecido pela violência nas operações policiais, que no último sábado matou 2 jovens na favela do Acari.

- Foi mais uma mulher negra assassinada nesse país!

A notícia da execução cortou a energia do baile. E a minha também. Poucas pessoas ainda dançavam quando Vinícius Junior entrou no jogo fazendo sua estréia na principal competição do futebol sulamericano. Logo num dos primeiros ataques o menino vinha marcado carregando pela direita, quando chegou na entrada da área puxou pra dentro, tirou de um, tirou de outro, bateu e a bola ainda desviou na zaga antes de ir parar no fundo das redes. Um golaço que eu só fui ver no replay.

Alô Tite, o garoto é brabo!

De instinto me levantei. Fui ver de perto o que tava acontecendo. Queria saber do lance, como foi a jogada do gol. Parei pra ver a partida, que ficou mais corrida, com mais chances de gol. Vi Dourado perder uns dois gols de cabeça. Depois, num contra-ataque, Diego só ajeitou pro Vinícius bater novamente de esquerda, dessa vez sem desvio, e carimbar a vitória fora de casa. O moleque é bom mesmo.

- Chama ele, Tite! Melhor que o Taisson!

A galera flamenguista do bar riu. Até concordaram. Eu fui tentar acender um cigarro e não achei meu bic, nem tinha mais vontade de continuar por lá, até tocar o Afro Rep do Rincon Sapiência. Pedi um isqueiro emprestado. Se pá eu até avistei o Choice e Coruja BC1 de role ali na Cantareira. Dei um tempo curtindo a música que rolava mas aquela fita da Marielle tava entrando na minha mente. Mano... E se fosse minha mãe, minha vó, minha mina? 

Porra, nem no mês das mulheres uma militante da causa social na política tem sossego no Brasil, onde o feminicídio mata oito por dia. Também, né... Além de ano de copa, 2018 é ano de eleição. E Marielle era uma ameaça pro conglomerado de poder que se estabelece nesse sistema sanguinário. Eles não querem mudança, renovação. Eles querem a quebrada e a pista do jeitinho que tá, porque assim funciona. Pelo menos pra eles.

Não pra nós, irmão. 15 milhões de desempregados, segundo o vendedor de balinha no ônibus que eu peguei indo pra São Gonçalo, um dia desses. Acuados pelo poder bélico do poder público que se diz em nome da segurança. Uma (falsa) segurança seletiva. Só que a galera da praça parecia mesmo estar mais preocupada com a vitória de virada do Mengão na Liberta, justamente o seu time do coração. Afinal, nesse país todo dia morre uma mina preta de quebrada. 

Sua luta não será esquecida, Marielle.

Marielle resiste. Filha de Yansã e Obaluayê, essa guerreira não terá sua passagem esquecida. Assim como tantas outras mulheres de periferia que tiveram suas vidas interrompidas brutalmente. O assassino dela e de seu motorista precisa pagar na justiça pelo que fez. E a investigação deste caso deveria esclarecer o(s) real(is) mandante(s) por trás desta execução cruel. Pois de que vale um título de grande expressão no futebol, se neste país a liberdade é silenciada por meio da bala?

Marielle sempre presente!

Descanse em paz, M.F
aqui a luta continua.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Cadeiradas na Costela


O tempo nublado fez com que não houvesse sol naquela cinzenta tarde de sábado, no centro de Florianópolis. O ensaio do bloco de samba-reggae Africatarina reunia cerca de quinze ritmistas e chamava a atenção dos curiosos que passavam pela Praça XV e pelo terminal velho. Uma porção de pessoas foi se reunindo ao redor da batucada. Mestre Edinho, ao centro da roda de tambores, era quem ditava o ritmo dos repiques, caixas e surdos. Sempre que alguém se aproximava dos ritmistas ele já perguntava imediatamente, exibindo seu costumeiro sorriso:

- E aí, quer vir tocar com a gente?

Uns rejeitam, alegam estarem apenas olhando. E então, antes de meterem o pé, tiram uma foto ou gravam um pequeno vídeo pra postar na rede social. Mas há também aqueles que aceitam o convite do mestre, sempre disposto a ensinar. Tudo ali na hora mesmo, no boca a boca, na simples linguagem oral percussiva, enquanto o ensaio acontece. Se a pessoa pega o ritmo e assimila a batida do instrumento, pronto, eis um novo integrante do bloco.

Já corria uma hora de ensaio quando um sujeito de baixa estatura, vestindo uma camisa desbotada do Grêmio se aproximou e ficou observando o batuque, bem de perto dos instrumentos, quase encostando em uma das integrantes que concentrada tocava sua caixa. Sem interromper o ritmo do samba-reggae, o mestre foi lá e perguntou ao homem com a maior boa vontade se ele queria aprender a tocar. O sujeito negou o convite e permaneceu imóvel, de olhar fixo para as caixas.

O mestre então pediu ao homem que se afastasse um pouco. O rapaz não entendeu, ou se fez de desentendido, e continuou por ali. O ensaio foi interrompido e o mestre então pediu com educação e voz firme para que sujeito se afastasse, pois ‘estava atrapalhando’. Os membros do grupo começavam a perder a paciência com o cara, que com cara amarrada finalmente se afastou um pouco, continuando ali por perto.

O repique chamou, a batucada respondeu, subiu o ritmo e assim o ensaio ia voltando ao normal. O sujeito com a camisa do tricolor gaúcho estava visivelmente embriagado e começou a falar sozinho na praça. E não pareciam palavras lá muito agradáveis. Entre palavras incompreensíveis que ele soltava, o homem bradava que Florianópolis não tem samba, que nunca teve, que Santa Catarina não era terra de carnaval… E que era coisa de baiano, de macumbeiro…

Pra quê, né? Alguns integrantes do grupo ouviram, não gostaram nem um pouco e ficaram encarando o sujeito, que ora se aproximava, ora se afastava. Quando o mestre parou o som para passar uma outra música, o rapaz com a velha camisa do Grêmio aproveitou o silêncio dos instrumentos pra falar alguma outra merda. A galera do bloco nem deu muita bola e o ritmo logo voltou. Um grandalhão mal encarado de camisa regata, que até então apenas assistia o ensaio encostado no muro foi lá tirar satisfação com o homem.

Os dois discutindo e a batucada rolando... Não se ouvia muita coisa entre o toque das marcações, apenas a troca de ofensas e ameaças. O grandalhão disse que se não fosse o ensaio quebrava ele ali mesmo, em plena praça. O senhor gremista, muito menor e mais velho, não demonstrava medo algum e desafiava o gigante do alto de sua coragem etilicamente impulsionada. Na iminência da agressão física o pessoal dos tambores parou de tocar e alguns foram lá pedir calma aos dois cidadãos. O mestre também foi lá conversar com o gigante, ao mesmo tempo que um rapaz que tocava surdo, também grande e forte, foi tirar satisfação com o gremista.

- Fica de boa, fica na tua!

Tudo parecia resolvido. Cada um para um lado. O sujeito com a camisa do Grêmio foi em direção a catedral. O grandalhão rumo à Alfândega. Os ritmistas voltaram a tocar. Mas o grandalhão não quis deixar barato. Aproveitou o momento de distração e se lançou atrás do gremista, que ameaçava ter uma peixeira, escondida. Os dois seguiram discutindo de perto em direção à rua, a 50 metros de uma cabine da polícia. Um taxista foi lá apartar o bate-boca. Os batuqueiros do bloco revezavam olhares entre o rosto de seu mestre e a discussão que se aproximava da rua. De longe, os ânimos pareciam mais tranquilos, realmente parecia que dessa vez ficaria por isso mesmo.


Apenas parecia. O gigante foi até a Alfândega e arranjou por ali uma cadeira velha de madeira, bem danificada. E o senhor, que momentos antes provocara os batuqueiros, agora estava sozinho, próximo a um dos bancos da praça XV. O grandalhão de regata aproveitou o descuido do tiozão, que só percebeu que iria levar uma cadeirada na costela quando a própria cadeira (e os braços do grandalhão) vinham em sua direção. O gremista ainda tentou resistir. Só foi cair no chão na quarta cadeirada. Na sexta, os pedestres que por ali passavam contiveram o gigante em fúria, fazendo com que a sétima cadeirada acertasse apenas o chão da praça. E por lá ficaram. A cadeira e o senhor. O grandão logo saiu fora.

Já o gremista foi se levantando ao poucos, com dificuldades em permanecer de pé. Caminhava mancando vagarosamente. O ensaio, que já estava no final, não teve mais clima para continuar. O tempo estava com cara de chuva. Depois da cena, o mestre agradeceu a presença de todos e pediu para que lhe ajudassem a guardar os instrumentos na Fiat Doblô, estacionada ao lado da praça. Disse também, com um sorriso meio amarelo, que espera que o próximo ensaio seja mais tranquilo.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Welcome to Torre de Babel

Num não-tempo, sem espaço próprio como sujeitos universais e anônimos que somos, eu e meu parça Welton fomos de motoca pra São Paulo, e lá demos aquele piãozinho, apézão mesmo. Já faz uns dois anos essa mão aí, que depois de muita ideia trocada, umas risadas e uns gole, entre diálogos e interações com vários tipos, várias cenas flagradas dos discretos e desinibidos personagens da maior cidade brasileira. Eu já nem morava mais lá, mas confesso que bateu aquela saudadezinha da babylon... Aí saiu um free, depois virou umas rima de final de caderno, e então se uniu com os videos curtos que eu vinha gravando no radinho. Segue o registro e a letra.



Quem tem mizuno sai de jet no pião da madrugada
Transporte público pagando o frete de obra superfaturada
É pé que passa apressado pedindo sempre passagem na viagem
Um, dois, três, quatro é quase cinco bilhão de passageiros
Nas linha da cidade que faz circular dinheiro e junto circula mágoa
De noite aqui sobra chuva, de dia aqui falta água
Por que o rio tá enterrado, largado, no condado acordado
Terra que não cochila, tem que andar ligeiro e não pode vacilar
Muita calma polícia, muita calma ladrão
Pra que o rolê não termine apenas em Consolação

É a madruga que te suga do Helipa à Brasilândia
Pois é na rua que cês frita achando que é gozolândia
Mas é que a lua traz consigo muito além da escuridão
Trabalhador que troca sonho pra tirar seu ganha pão
E entre shopping e sede de banco,
Num tom de pele que é menos branco,
Faz da passagem, à margem, tornar seu lar,
E deita ali com as reciclagem se apropria do não-lugar,
Onde o farol das nave chave ofusca vários olhar
Quando a Gomide tromba a Augusta na busca de achar um bar
Lotado de alma vazia, fumaça no ar que respira,
Garoa que não alivia, só não pira nas pira da noite logo que vira, Pela sombra vai na tranquila, relaxa, que o mundo gira
Nas calçadas escura e imunda que abunda fim de cigarro
Aperta o passo pra chegar na multidão de solitário
Na avenida feita pra carro, a luxúria quer mais um trago,
Enquanto uns baixa a cabeça outros passam tirando sarro
Mas a história muda na praça, quero ver você fazer graça Lá na parte da cidade 24h ocupada

Cultura alternativa na pura cannabis sativa Com a mente e a voz ativa, que sente a cidade viva Vive a rua que é sua companheira fiel Atua e sua, crua e nua, Welcome to Torre de Babel!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Carona de volta para Florianópolis

Apesar da ida ter sido um tanto conturbada, continuei firme na ideia de pegar carona. Conhecer pessoas novas, viajar com mais liberdade e poder descer lá na quebrada eram algumas das vantagens pesadas na balança. Dessa vez o combinado era sair pela manhã da capital paulista. E eu, como um sujeito que não é lá muito amante das primeiras horas do dia, principalmente nos finais de semana, fiquei receoso em perder o horário e furar com o mano lá do aplicativo. Como partiríamos cedo num sábado, tive a genial ideia de virar a noite na sexta-feira paulistana. Assim eu me cansaria fisicamente, dormiria na viagem e não atrasaria o cara que ia armar a caroninha.

O tradicional samba da rua Treze de Maio era o meu destino. Pela facilidade de acesso e com muitas saudades de uma roda na rua, encostei lá com minha irmã. Não sem antes tomar uma gelada, merecida, é claro, no bar da esquina. E ela nem pra me acompanhar... A garoa teimava em fazer parte da noite. Eu só pensava positivo, pra não ficar doente, afinal, não ia ter canja de galinha. Enquanto ela procurava uma amiga, me aprocheguei da batucada. A rua tava cheia. Mas até que o caminhão da limpeza passava com facilidade. Aquele pagode reunia uma bela variedade social, com grande presença dos nego veio do Bexiga, ali no miolo, e também dos universitários do centro da cidade, bebendo seus drinks.

Minha irmã partiu. E o samba continua... A garoa ameaçou a virar chuva. E eu me encostei no muro da igreja de Nossa Senhora de Achiropita, ao lado duma rapazeada da minha idade que também curtia o rolê. Foi dali que ouvi o samba do Vai-Vai para o próximo carnaval. Mais cadenciado, é lógico, né, mas já deu pra sentir o peso do bagulho que vem por aí. E assim a turma do Madeira de Lei resolveu brecar, talvez para poder virar com tranquilidade o conteúdo de seus respectivos copos. Só, entre as gotículas de água e a fumaça que pairava na calçada, achei melhor caçar o que fazer, até porque meu relógio ainda nem marcava duas da manhã.

Vai no Bixiga pra ver...

Desci a Santo Antonio, longe de pensar em casamento. Vim desviando das poças e falando sozinho até desembocar lá na Roosevelt. Os bares estavam mais cheios que a praça. E eu estava com mais fome do que vontade de beber. Acendi um careta. O mano que tava na rua viu. Me olhou, mas não pediu. Eu passei reto, fingi esconder o maço. Me arrependi logo na próxima esquina do gesto egoísta, e retornei pra falar com o cara. Ele se pá guardava carros ali. Tava com mais dois. Dei dois cigarros, dizendo que estava pensando em parar de fumar.

- Ah, então dá o maço de uma vez, né?

Eu dei risada. Tinha comprado o Derby naquele dia, e não pretendia me desfazer dele tão facil assim. Segui minha caminhada Augusta acima, sem dar guela, entre filas de balada e viaturas policiais. Num determinado trecho lá, já quase chegando na Paulista, o fluxo de gente aumentou devido aos vendedores ambulantes de goró e seus clientes. Driblei caixa de isopor, lixeira e bicicleta, quando escutei um: "Ei, parça!".

- Cê num tem uma sedinha aí?

Opa. Fiz a noite do mano mais feliz, já com a intenção de retornar pra casa. Só fui ver que eram 3:30 nos relógios lá da Paulista. No caminho de volta, tinha um viatura na calçada da Nove de Julho. Mó breu. Clima pesado na cidade. Achei que ia enquadrar. Tinham matado quatro ou cinco, lá na Sul, na noite anterior. O cara nem olhou. Dobrei a esquina aliviado. Saiu um mano do ponto de taxi e já me questionou:

- Vai querer o que?

Agradeci e segui em frente. Ele insistiu, só que eu nem cheguei a decifrar a frase, tava cansadão já. Deixa a mercadoria dele pra quem tá no apetite, né. Subi até a cozinha mentalizando comida na geladeira. Lembrei de umas bananas que eu tinha. Das bolachas da minha irmã. Quando fui ver mesmo já era mais de 4 da matina. Encostei pra descansar um pouco, duas horinhas...

Levantei quebraaaaaado. E fui. Não podia rolar atraso! Tomei um banhão, peguei minhas fita e saí de estomago vazio. Claro que as bananas e bolachas tavam na mochila, né. O ponto de encontro ia ser lá na entrada do metrô Butantã. E dali até a estação mais próxima era chão, hein marvado. Fui tentar os busão que passam na Nove de Julho. Algum deles tinha que ir pra lá! Santo Amaro, não. João Dias, não. Jardim Ângela, não pô. Aí vem um comboio da Rota, à milhão. Eu olho no relógio e descubro que tenho meia hora pra comparecer no local marcado com pontualidade.

Num desses ônibus que pararam eu li 'Francisco Morato'. É perto, né motora? Avisei o maninho lá da carona que eu ia demorar um pouco. Não tinha trânsito, mas a cada ponto era uma parada que a lotação fazia. Assim foi até a Cidade Jardim, onde ela cruzou a ponte mas não seguiu reto até o metrô. Ish, era hora de saltar. O cara me ligando e eu dizendo que estava quase lá. Mentira não era. Eu só não sabia muito bem pra que lado andar.

Segui o fluxo de pessoas e logo um guardinha daquelas casas arborizadas da Zona Oeste me confirmou a direção correta. Apertei o passo, troquei a mala de ombro e fui. Foi fácil de achar o maluco, até porque o veículo da carona era uma Kombi, azulzinha, muito bem pintada. Tava ele e um outro mano, com um óculos tatuado no antebraço. Cumprimentei os caras, recusei o café na garrrafa térmica e ainda fiquei sabendo que, além daquelas tralhas lá atrás, um casal também viajaria conosco.

Enfim, partimos. Antes de sairmos da grande São Paulo a chuva encontrou a gente. O tempo tava cinza, e parecia que não iria mudar tão cedo. Na frente, os dois rapazes bolavam um cigarro atrás do outro, que, as vezes, chegava até mim. Relaxei assim que aprendi a travar a porta da Kombi. O papo no carro era sobre comida. Aí que eles explanaram que tinham comprado uns pães, que tavam ali atrás, que podia pegar. Só então aceitei o café da garrafa. Bem doce. O motorista disse que a mãe dele tinha feito. Lembrei do cheiro do café da minha mãe. Até que o assunto passou a ser família, a saída da casa dos pais...

Partiu região Sul! 

Ao lado do cara que vinha guiando, tinha um patrício mais ou menos com a minha idade. Ele contou que tava desanimado com o cursinho, que não queria pagar faculdade e partiu pra viajar. A ideia era chegar no Uruguai, mas não sem antes dar um mergulho em Floripa, né. Disse não ter nem onde ficar quando desembarcasse na ilha. O casal, ao meu lado, ja emendou que ficariam na casa de amigos, que parecia ser uma casa grande e tals. O meninão já tinha arranjado hospedagem, pelo menos por uma noite.

Seguimos de boas até o Vale do Ribeira, onde descobri que tinha uma gatinha viajando com a gente, no meio das bagagens. Pensei mesmo ter ouvido uns 'miau'. Ali também foi onde a kombizinha começou a vacilar. Parece que a terceira não tava engatando. Paramos num posto em Jacupiranga para dar uma olhada no câmbio. A primeira marcha também não estava entrando. O mano se enfiou embaixo da perua e saiu disposto a encontrar um mecânico. Antes, nos avisou que, além daqueles pães, tinham algumas salsichas. Armou. Tava na lara, mesmo.

Eu já tava no meu terceiro pão com salsicha quando ouvir o mecânico falar, com a voz abafada pela kombi:

- Ish, essa peça só lá na cidade.

Ele foi buscar de motinha, disse que era uns 20 minutinhos, mas já parecia ter passado mais de meia-hora. A moça tinha capotado lá dentro do carro. O namorado dela tava sentado ao meu lado, com uma cara de desânimo semelhante à minha. O rapaz do óculos no braço tinha ido procurar café pra botar na garrafa. E o motorista da kombi ora procurava sua gatinha através dos vidros, ora se deitava embaixo do veículo.

O mano enfim chegou e montou rapidinho o bagulho. Levou uma onça do piloto. Nós seguimos viagem rumo a serra do Cafezal. Tranquila, tirando algumas curvas em que o parça lá cismava em comer o acostamento. Chegamos ao Paraná, passamos pela região de Curitiba e, ao seguirmos rumo Santa Catarina, li de relance que era o último posto antes da serra, o próximo só depois de 50 km. Nem dez minutos depois o cara me solta que a gasolina estava acabando.

Paramos noutro posto, ainda no PR pro cara ver se abastecia. Só que aquele não era um posto de combustível, pelo menos não mais. Tinha apenas um restaurante, umas casinhas e uma oficina de caminhão, lá atrás. Nosso motorista até tentou comprar gasosa de um sujeito que trabalha no restaurante, mas um cara que chegou alguns minutos antes de nós já estava fazendo isso. A sorte é que no diálogo com a rapazeada lá de dentro ele conseguiu uma carona até o próximo posto, em Garuva, uns 45 minutos dali.

Durante as duas horas de espera que tivemos naquela kombi pude ouvir dois cd's que trouxe da casa da minha irmã. Um do Ataulfo Alves, outro de uma sambista paulistana que ela tinha ganhado no Sesc. Eu e outro moleque fumamos uns 4 baseados naquela espera. Os últimos, do lado de fora, porque o rádio da perua agora tocava rock. Deixamos a gata e o casal lá, mais a vontade, enquanto a gente tomava um ar e soprava a fumaça ali fora. O maninho entrou, disse estar com frio, e tava mesmo. Fui até o outro lado do posto, mijar ali na moitinha e aguardar um doido descer do outro lado da rodovia com três galões de gasolina no braço.

le gusta la gasolina

Depois que sentei na calçada, não demorou 10 minutos pro nosso piloto descer de um caminhão que encostava na beira da pista. Fui ajudá-lo, pois não aguentava mais aquela espera agoniante. Fomos cair na estrada outra vez com o dia já escurecendo. Ele contou que ninguém queria parar pra lhe dar carona de volta, que estava quase desistindo quando o caminhoneiro parou. Exausto e chapado, eu não acompanhava mais a música, nem os miados da gatinha, muito menos a conversa que rolava. Confesso que dei algumas pescadas.

Lembro das cidades catarinenses passando, da paisagem noturna, da chuvinha pingando no vidro. Alguns pedágios vieram e os caras ficaram na brisa de que toda atendente de cancela se chamava Maria. Só que, não. Descobrimos na quarta vez que era só coincidência. Passei a prestar atenção no caminho somente ao ver despontar no litoral a formosa Ilha de Santa Catarina. Naquele momento começaram os comentários entusiasmados a respeito da ilha, de suas praias e da vida noturna. A movimentação em novembro já era grande.

Ao sair da Br-101 avisei o piloto que morava na primeira a esquerda. Ele passou reto. Pedi pra descer ali na passarela do Monte Cristo mesmo, já era. Ele parou, mas como tava chovendo ainda resolveu me deixar mais perto de casa. Fizemos a volta por Campinas e pedi pra parar na frente da padaria. Subir a estreita ruazinha da Chico Mendes na kombi lotada de tralha com um motorista chapado às 11h30 da noite não me pareceu uma boa ideia. Mas tava 'polim'. A chuva até ameaçava parar. Peguei meus bagui, paguei o cara e agradeci.

Na entrada de casa uma barata veio me recepcionar. Liguei pra minha mãe avisando que cheguei bem. Larguei as coisas no chão e capotei no colchão sem lençol. Devo ter sonhado com a poltrona dum puta um ônibus-leito.

sábado, 31 de dezembro de 2016

As perdas de um ano trágico

Dois anos atrás eu escrevia aqui sobre o quão cruel o ano havia sido para a arte. Nesse sentido, 2016 supera. Fácil. Não só com a arte, mas também com o esporte, né? Afinal, o avião que levava o elenco da Chapecoense para a final da Copa Sul-Americana caiu na Colômbia deixando 71 mortos e 6 feridos, entre jogadores, funcionários do clube, profissionais da imprensa e de outras áreas. Tragédia que chocou não só os brasileiros, mas todo o mundo. O Atlético Nacional, bicampeão da Libertadores, ofereceu o título da Sul-Americana à Chape, que naquela madrugada de 29 de novembro ia a sua primeira final internacional.

Esse elenco jamais será esquecido!

Outro triste marco no esporte esse ano foi a morte do pugilista norte-americano Muhammad Ali, o homem do século passado.

- Mas pera aí, e o Pelé?

Pelé é conhecido como o atleta do século passado. O maior do esporte mais popular no mundo. Ninguém jogou como ele. Ali, além de ser o maior nos ringues, era o maior fora deles. Recusou lutar na guerra do Vietnã, por se opor à dominação étnico-racial estadunidense no país. A guerra foi um desastre. Ali foi punido, perdeu dinheiro, ficou um longo período sem lutar, mas não abaixou a cabeça. Tal qual Malcolm X e Martin Luther King, foi um líder negro em um dos lugares mais racistas do mundo. Cassius Clay, como Ali fora batizado, faleceu em 3 de junho.

Se liga nesse clipe do Rashid, do som Quando Éramos Reis, mesmo nome do filme que homenageia Muhammad Ali:



Ainda na linha mundial, 2016 nos levou Prince, David Bowie e, mais recentemente, George Michael. Todos grandes artistas, ídolos do pop. Em terras brasileiras a voz grave de Cauby Peixoto também silenciou este ano.

Silenciou ainda os corpos musicais dos brasileiros Papete e Naná Vasconcelos. Ambos grandes percussionistas, reconhecidos internacionalmente e quase anônimos aqui no país.

Olha só Papete nos dando uma verdadeira aula de percussão e ritmos brasileiros com pandeiro, atabaque e berimbau; no programa Som Brasil, em 1988:




E mais dois mestres se foram neste ano. Mestres na cultura popular. Verdadeiros griots. São mais duas bibliotecas que desaparecem. Uma na arte do cordel, com a ida do paraibano Mestre Azulão, em 12 de abril. Outra na ginga da capoeira, camará, que perdeu o baiano Mestre Ananias em 21 de julho.

Deixo aqui um vídeo de uma roda de capoeira em Minas que explica por si só o título de mestre de Ananias Ferreira:



Nas letras, a perda também foi considerável. Umberto Eco e Ferreira Gullar se foram, mas deixaram seus valiosos escritos. Confesso que ainda não tive muito contato com a literatura do escritor italiano, mas sua obra acadêmica já me despertou o interesse. O maranhense me fascinou pela bela poesia. Nem um pouco pela crítica de arte ou análise política.

No audiovisual, quem nos deixou este ano foi o diretor argentino que vivia no Brasil: Hector Babenco. Ele realizou memoráveis filmes sobre nossa realidade social como Pixote - A lei do mais fraco, e Carandiru.

Cena do filme Carandiru, em que Sabotage contracena com Rita Cadillac

Já na área de produção musical e direção de televisão, Fernando Faro, idealizador do programa Ensaio foi quem faleceu. Pra mim, simplesmente o melhor programa de música da televisão. O músico da vez responde as perguntas (que não são ouvidas pelo telespectador) de Faro em um palco pouco iluminado, onde somente sua voz e (de vez em quando) o som dos instrumentos rompem o silêncio, dando destaque às falas e perfomances do entrevistado ao longo do programa. Genial.

Só que a principal perda mesmo foi a de Mário Sérgio Ferreira: cantor, compositor e cavaquinista do Fundo de Quintal, o grupo que revolucionou as rodas de samba do Rio de Janeiro. Ele era paulista, de alma carioca. Embora fã dos caras, nunca cheguei a encostar numa apresentação do Fundo. 'Quase' fui umas três vezes. Ora pelo preço, ora por compromisso, ora por atraso mesmo. Em uma delas, na Virada Cultural da capital paulista deste ano, em maio. Cheguei no Sesc Pompéia para retirar o ingresso gratuito e fui informado que já estavam esgotados. Peguei ingresso prum outro show qualquer, que eu nem cheguei a ir. Voltei refletindo na oportunidade que eu acabara de perder, pensando seriamente em curtir o show do lado de fora, talvez tentar falar com os caras. Sei lá. É o Fundo de Quintal, né, velho! Não sabia quando teria essa oportunidade novamente. Na semana seguinte, em 29 de maio, num domingo, falecia Mário Sérgio.

Que 2017 seja mais calmaria, né? Menos atentados, menos chacinas, menos tragédias, menos perdas!
E mais força, que é pra gente enfrentar juntos o que vem por aí, porque o show tem que continuar...




Mas iremos achar o tom, 
um acorde com lindo som
e fazer com que fique bom
outra vez o nosso cantar
e a gente vai ser feliz
olha nós outra vez no ar...

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Carona de ida para Pindamonhangaba


De greve no trampo e com o aniversário da coroa batendo na porta, quem atendeu foi aquela saudade. Falei pra ela que ia pegar uma carona por meio de um aplicativo que instalei no celular, que já tava tudo certo, a gente ia sair de Florianópolis no comecinho da tarde de quinta-feira, pra chegar em casa de madrugada. Meio receosa, ela pediu para que eu tomasse cuidado no caminho. Não a desobedeci.

O cara da carona disse que já tava a caminho, e eu, como sempre, não tava pronto. Botei na mala as roupas que tavam a vista, tirei o lixo, fechei a casa e fui, de chinelo, mochila na lomba e mala no braço, me arrastando até a rua paralela à Via Expressa, aqui na quebrada mesmo. No caminho até o ponto de encontro ele me ligou, descrevendo outro local, diferente do que a gente tinha combinado. Na real, tinha ficado até mais perto. Só desci a rua e dobrei a direita. O uninho vinho com placa de Caçapava tava lá, me esperando.

Simpático, ele me cumprimentou e me ajudou apertar as coisas no porta-malas. Partimos. No veículo estavam o cara e a mina dele, no banco da frente; e um outro mano, no banco de trás. A paisagem do litoral catarinense ia contrastando com o mato, as casinhas e estradas. O silêncio do carro me fez refletir bastante. Por que será que tem tanto morro? Deve ser formação rochosa antiga, talvez escudos cristalinos... Como o vidro só abre um tequinho, não sosseguei o olhar. Abençoadas sejam as montanhas e pedreiras. Axé, meu pai. Axé na sua morada.

 Pedra Branca do Araraquara

A tarde ia passado, e nós ainda estávamos de passagem. Saindo de Joinville, iniciando a serra, ouviu-se um estalo vindo do capô, seguido de fumaça. A temperatura do radiador acionou a ventoinha. O motorista encostou o carro e foi averiguar o que havia ocorrido. Aproveitei para abrir uma bolacha, tomar um ar na muretinha do acostamento da rodovia e trocar umas ideias sobre carro velho.

Parece que arrebentou a mangueirinha. O trânsito ficou intenso na subida da serra, principalmente por causa da grande quantidade de caminhões. E a gente ali, aguardando a vinda de um caminhão-guincho, que levou longos minutos até chegar. Devidamente rebocados até o posto de serviços mais próximo, a missão agora era tentar remendar a borracha quebrada. A noite vinha chegando, e a água não parava de vazar. Enchemos o radiador no posto, enchemos também algumas garrafas pet; e pensamos em seguir viagem. Não rolou. A água tava escorrendo toda.

O mecânico daquele posto tava mais preocupado era com o motor dum caminhão de 5 eixos. Sem nenhuma pressa, ele respondia as perguntas do dono do carro. Disse que isso aí era com o borracheiro. Que por sua vez não estava no posto, tinha fechado a oficina e ido até Curitiba. Tivemos que esperar o rapaz voltar ao serviço. E isso demorou um pouco. Comi minhas últimas frutas e fui dar uma banda a pé, pra esfriar a cabeça, parelha com a temperatura do radiador do uninho.

O borracheiro enfim chegou, olhou o problema do carro e logo foi atrás duma peça, lá dentro da oficina. Trocaram a mangueirinha, que por ser de outro modelo continuou vazando água. Só que agora em quantidade bem menor. Eles tentaram vedar o buraco, apertar, remendar e contar com as garrafinhas. Decidimos partir. Já devia tá rolando o jogo do Brasil contra a Argentina, pelas eliminatórias.

la maledita

E assim a gente foi, de posto em posto, aquecendo e esfriando a parada, até parar para tirar um ronco em São José dos Pinhais. Dessa forma a gente esperava o dia amanhecer para resolver o problema do carro à luz natural e em horário comercial. Era um hotelzinho de beira de estrada, simples, e o mais importante, com altos café da manhã! Deu tempo ainda de ver o jornal matinal, saber que a seleção goleou e que tavam rolando protestos aqui no Brasil, nos Estados Unidos...

Lembrei do Trump, do Gean, do Dória... Foi difícil conciliar com minha vontade de chegar à SP. Antes das oito da manhã a gente meteu o pé na estrada novamente. Agora sim, parecia que tava tudo certo. E eu não era o único apressado dali. Ao meu lado, o rapaz que iria ao show do Guns N' Roses contava que tinha reservado um quarto de hostel e queria chegar logo pra deixar as malas em casa e correr pra fila. Ele pretendia estar na porta do Allianz Parque até as 17h, embora o show só começasse mesmo lá pelas 22h30.

Ele era do Pará. Disse não ter muitas saudades de lá, deixando clara a sua vontade de morar no exterior. O casal dos bancos da frente logo deu andamento ao papo. O assunto da viagem tornava-se, vejam só: viagens; mais distantes, é claro, porque a imaginação não tem fronteiras. Ela voa. E a gente deslizava pelo asfalto, até chegar mais um pedágio. As muitas plantações de banana da Serra do Cafezal me lembram das que eu peguei mais cedo na cozinha do hotel. Eu ainda tinha mais sono do que vontade de interagir a respeito das cargas tributárias pelo mundo.

A densa paisagem das moradias e encostas nas periferias de Itapecerica da Serra, Embu das Artes, Cotia, Osasco e Carapicuíba me distraíam do rock que tocava no rádio e da ansiedade do cara que ia ao show. Parece ter distraído também o piloto, que tomou a direção da rodovia Anhanguera e atrasou ainda mais a viagem. Na chegada à marginal do Tietê, aquela recepção paulistana: trânsito! Bastante trânsito. Não bastasse ser sexta-cheira, era véspera de feriado, e horas antes do show de umas bandas mais famosas do mundo.

O mano do lado tava agoniado. Queria chegar logo, mas tava tudo parado. Apontei a ele alguns ônibus de frente verde, que iam pro terminal da Barra Funda, e expliquei que do terminal pro estádio é um, dois. Ele tava de malas, e havia combinado anteriormente com o motorista de ficar na rodoviária do Tietê, pra que ele pudesse ir ao hostel de metrô. A ideia não se concretizou porque a Barra Funda tava bem mais perto, então ,passando a quadra do Águia de Ouro, ali, a gente dobrou à direita. A quantidade de carros na Marquês de São Vicente era bem menor do que a da marginal, o que não significa ausência de trânsito, mas pelo menos fluía.
 
 
 Axel Rose e a multidão

Deixou de fluir novamente quando a gente fez o caminho de volta pra cair na marginal e enfim pegar a via Dutra. Mas demorou, viu? Era começo de tarde quando a gente já tomava sol naquele 'anda e para'. Descobri que o piloto tem uma barbearia e viaja à Floripa quase todo mês, pra namorar né. Muitas músicas, promoções, comerciais e vendedores ambulantes depois, nós pegamos o viaduto de acesso à rodovia. O tempo já tinha até fechado, mas o calor ainda era de 38º. Eu, que não tinha almoçado, queria mesmo era um bom banho.

Durante a conversa do casal, encontrei um esboço do meu sotaque. Ele falava meio caipira, carregando o 'r', com aquelas gírias do mato, coisa nossa, né. Ela era bem manezinha, sabes? Puxava o 's', carregava a entonação das frases e adorava usar o diminutivo. Ao logo do Vale do Paraíba a chuva era intensa. Os motoqueiros faziam do viaduto seu grande provador. Chegávamos em São José dos Campos no horário de pico, por isso nos atrasamos ainda mais. Soube depois que chegou a cair granizo por ali. No final, já exaustos, eles discutiram por que ela não conhecia o Mazzaropi, tadinha. E ele, tanso, não havia lido um poema sequer do Cruz e Souza.

Só que aí a gente já tava contornando o letreiro ali perto da Fapi, na entrada da cidade. Pra mudar a vibe do carro ele me perguntou sobre um possível mercado em Pinda para barbearias "assim, mais chique, né". Eu desconversei, disse que tava tudo caro, que preferia cortar meu cabelo na casa de um parceiro. A chuva ainda caía por sobre o para-brisa do uno quando eu apontei a casinha amarela, em frente a árvore. Ufa! Era aquele o banho que eu queria. E ainda nem era meia-noite...

- Manhêeee, cheguei! ãn ãn

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

31 de Agosto - Dia de Golpe

O dia começou cheio já. De mudança, a bagunça do quarto vai além do que já é natural. No país então, vish!


Do trabalho, pela tevezinha que tem na agência de notícias eu peguei o final da fala da senadora Kátia Abreu, do PMDB, que por sinal é o partido do nosso novo salvador da pátria... digo, nosso presidente da república, novíssimo em Folha. Olhei pra tela meio desconfiado. Não pelo resultado da votação no senado, que derrubou o mandato petista. O que achei curioso foi ver uma empresária e ruralista, inimiga dos movimentos sociais do campo, ser a voz que se levantava em defesa de Dilma. Seria cômico se não fosse trágico.


Contradições à parte, o golpe foi dado. Noticiado e aceito. Aqui na universidade os estudantes pareciam se preocupar mais com o tamanho da fila do restaurante. E eu, com o tamanho do meu cabelo. Ou com a falta de xampu, sei lá. Parei num salão que eu vi no caminho. Receoso, perguntei pros caras do lado de fora:

- É só pra mulher, ou faz corte de homem também?


Os caras riram e pediram para que me sentasse lá dentro, na cadeira em frente ao espelho. Na telinha ao fundo dava pra ver a testa de Temer brilhar. Ele fazia o discurso de posse. Ao lado da televisão do salão, duas moças cuidavam das unhas de uma cliente. A intimidade as levou ao assunto do dia: o novo presidente.

- Ai, ele é um cara inteligente, né? Se veste bem, tem bom gosto. Agora sim!

- Pois é, entende de direito. Sabe falar. Oh, tá vendo? Não é aquela mulher que num sabe nem falar inglês, nem formular uma frase… Meu deus!!!

- Sem contar que ele tem livros publicados. É um intelectual, tipo o outro lá, como que ele chama mesmo?

- Fernando Henrique? Eu sempre votei nele, amiga.

- Eu também, nunca votei no Lula. Picareta. Olha aí no que deu. Eu sabia! SA-BIA!

Paralelo ao diálogo e à transmissão televisiva, Baiano seguia passando a máquina zero alta no meu cabelo. Ele e o rapaz do caixa eram os únicos homens que trabalhavam no lugar. Cansado daquela conversinha mole das peruas, rompi o silêncio do lado mais próximo à rua:

- E aí, cara. Será que esse Temer vai mudar alguma coisa?

Baiano continuou cortando. Olhou pra tv e disse, meio indiferente, voltando a passar a máquininha:

- Mudar não vai, né. Vão continuar roubando. Mas é gente nova, são outros esquemas agora, né?

Lembrei que Michel Temer não era tão novo assim. São 75 anos. E, além disso, o atual presidente já foi secretário de segurança pública de São Paulo, deputado e presidente da câmara, além de vice-presidente do país, ainda que decorativo, por 5 anos. Macaco velho de cargos público, ratão de Brasília.


O barbeiro Baiano desconversou. Perguntou se eu queria que deixasse mais cabelo em cima, falando que se cortasse muito não ia ficar legal. Pensei em retomar o assunto, falar nos possíveis cortes do “novo” governo, que o Brasil não vai ficar legal assim… Apenas concordei movimentando a cabeça pra cima e pra baixo.


Do outro lado do salão, com a chegada de uma senhora que carregava um bebê no colo, acompanhada de um senhorzinho, que logo se sentou; a política voltou à pauta. Bem vestida, de cordão grosso no pescoço, vestido de marca e botas de pelúcia, com certeza super macias, ela chegou falando de crise com um ar irônico. O rapaz que tava no caixa foi lá aumentar o volume para que elas ouvissem Temer esbravejar com firmeza:

- Se nos chamarem de golpista, diga 'Golpista é você que não respeita a Constituição'!

Deu pra ver no reflexo do espelho a empolgação das mulheres.

- Como ele fala bonito, gente! Ahahaha

Baiano diminuiu o tom de voz e cochichou pra mim:

- Bom mesmo era o Lula. Quero ver ter outro igual a ele. Num tem! Que fez mesmo, só ele.

- Ainda mais para a classe mais pobre, né?, continuei

- É verdade. Pode ter o que for contra ele, dizer que é ladrão, mas que ele fez ele fez!


Espero que não desfaçam, pelo menos a democracia, pensei comigo. Do outro lado da cidade, no centro, manifestantes começavam a se reunir em um ato contra o impeachment. A polícia começava a cercar a área. Os trabalhadores começavam a voltar pra casa.


Nenhum direito a menos


- E aí, Eduardo. Tá bom assim?, me perguntou Baiano.


Porra, cara. O país nesta merda toda aí e tu me perguntando se tá bom assim…

- Tá… Tá sim. Ficou chique, cara.  


Percebendo minha fala serena ele ainda tentou me animar:

- Aí é bom que cê pode deixar assim, ou pro lado, ou dependendo também, passar um creminho e botar pra cima, arrepiado, sabe?

- Dependendo do governo, né? hahaha


Por enquanto, meu cabelo tá caído e despenteado. Porém, o pezinho agora tá retinho. A vaidosa semelhança com um Brasil temerário, pós-golpe.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Aqui é Praça da Cascata, tru, não Pokemon

Disseram pra eu tomar cuidado. Andar ligado. Tava sendo enquadro o final de semana todo, porque é que dia de semana seria diferente? Os cara num pode me vê de nave, né?

Dá nada, não. Bagulho doido, mundão girando; a tocha passando e o tempo também. Demorei a reconhecer uns rostos em Pinda. Alguns olhares. Mas a cidade tava a mesma fita. Calma no centro. Moiada na periferia. Até que chegou uma base móvel e começou a enquadrar os carros, na esquina da pracinha da cascata. Parece que eles tão caçando algo.

Quem também tava igualzinho era o André. Continua gente boa, o mesmo jeitão. Lembramo umas história naquele cenário vazio. Não tinha churros. Nem o pipoqueiro, dos queijão enorme, tinha ali mais. Farmácia, padaria e o china eram os únicos pontos de comércio abertos.

Atrás da gente, perto de um busto que tem lá - deve ser do Rui Barbosa, sei lá - o pessoal da rua fumava e bebia corote, quase que escondidos pela copa da árvore. Quem passava na praça nem ganhava nada. E, nos bancos, dois casais, de amigos talvez, riam por detrás das bicicletas encostadas no poste.

Só que tinha uma galeeeera mexendo no celular, vidrada mesmo, mais do que o normal pra uma praça tranquila. Quem passava por ela ia ao chafariz e apontava o bendito aparelho. Eles iam, as vezes sorrindo, sempre distraídos. Nem viam os casais, os moradores de rua, os policias, nem eu, nem o André. Olha que a noite tava agradável, hein.

 A gente seguia na ideia. Os caras seguiam, curiosos, com smartphone em mãos. Isso aconteceu em família, com um casalzinho, com pai e filho, com uns moleques de bike, um casal de moto, além das pessoas que vinham, de carro ou à pé, para o centro da praça. E nem era natal, viu.

A simples quarta de comércio fechado parecia um tanto estranha:

- Ahhhhh, foi hoje que liberou o Pokémon aqui pro Brasil, né?

- Vish, então todo mundo já pode caçar...

- Agora que eu entendi esse caras aí!

- Seloko...



Nóis tava apertado, daí eu fui pra casa caçar o que fazer.

E o pessoal continuou colando lá na praça, grudado na tela. Nem aí com a cidade que dorme cedo. Muito menos com a turma da rua que não costuma dormir.

Tomei cuidado na volta. Quando cheguei vi que o Santos é quem ia dormir líder do Brasileirão. Rá. Esse Peixe aí é difícil de capturar. Nada contra a corrente.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Seu Fróis, minha estrela cadente

Essa noite, um pouco mais cedo, fui dar umas voltas nas ruas do meu bairro. Ficar o dia inteiro dentro de casa não ajuda em nada. Precisava respirar o ar da noite, tirar alguma motivação da lua crescente, ou do céu estrelado do Vale do Paraíba... Num momento de distração desceu diante dos meus olhos uma estrela cadente. Linda e efêmera, eu pisquei e ela passou toda apressada, num sopro, pique a vida da gente.

Dizem que quando se avista uma estrela cadente é que a passagem da terra pro céu foi bem sucedida. Nem me liguei em fazer pedido. Pensei se tudo isso era mesmo real. Ela escorreu tão rápido pelo tecido escuro do firmamento que só consegui lembrar de sorrir.

Meu pai se foi num belo domingo de sol. O céu era azul, azulzinho. Da cor dos teus olhos. E fazia uma friaca tenebrosa... A madrugada de sábado foi a mais gelada de todo o ano. Quem sabe de toda a minha vida. Era dia dos namorados. Dia do terrível massacre que deixou 50 mortos numa boate em Orlando, cidade norte-americana que a gente não chegou a conhecer porque não nos deram o visto. Foi também o dia de derrota do Galo frente ao Cruzeiro, de vitória do Porco sobre o Corinthians (seus dois times: Atlético MG e Palmeiras) e do vexame da seleção brasileira contra o Peru, sendo eliminada da Copa América na fase grupos. Logo ele, que me ensinou a amar o futebol...

Foi sepultado em 13 de junho, dia de Santo Antônio, uma das poucas figuras religiosas do qual era devoto e que carregou consigo no segundo nome desde o batismo lá em 1939.


Efêmeras foram também as voltas que eu e a molecada da rua davam na caçamba da Montana, toda adesivada de fogo. A gente ficava brincando no portão de casa, trocando ideia e esperaaaaando o senhor chegar. Não me recordo da maneira como aquelas voltas no quarteirão começaram, mas parecem agora que duravam somente algumas piscadas de olhos, alguns flashs de adrenalina e risada.

Assim como os dias ao teu lado, que passavam depressa em qualquer lugar que me levasse: na oficina, na feira, na casa dum amigo, num restaurante ou, de vez em quando, lá pra Capital: São Paulo. Tudo era novo, contigo tudo era muito intenso. Já eu, ainda era muito menino pra te acompanhar. E logo antes que as estrelas do céu dessem as caras, você me deixava em casa. As vezes, nem ficava para o café...

Bom, acho que cresci um pouco, ainda que bem distante dos teus 1,80. Não te alcancei nem no tamanho do pé, nem no comprimento das unhas. Quem sabe nos cabelos brancos algum dia desses, né? 

Já até me guiava sozinho pelas constelações, mas sua presença continuava essencial pra minha órbita. Talvez por você ter conhecido e morado em tantos lugares, por suas casas serem sempre repletas de mapas, papéis, chaveiros e pneus; eu quis rodar sozinho meus oitocentos e cinquenta quilômetros. Quis mergulhar em águas que você não havia entrado. Sair do tedioso ritmo lento que o relógio marca aqui ao acompanhar o canto dos galos da vizinhança.

Confesso que meses atrás fiquei um bocado feliz com nossa conversa no telefone que quase chegou aos 10 minutos de duração. Recorde oficial! "Vai ver a distância aproxima mesmo as pessoas". Pura ilusão. O celular não capta emoção, nem conecta seus olhos com os meus. Saí em busca de liberdade, contudo, refém das empresas de transporte coletivo, passei a levar 16 horas para lhe dar um simples abraço de segundos. Até porque a gente nunca teve muita paciência para essas coisas aí, né. 

Efêmero memo, aos moldes da nossa despedida, senão eu perderia o meu ônibus.
Breve, como a última ligação, em que eu senti um desânimozinho na tua voz.
Ligeiro, tal qual a estrela cadente que corria no céu.
Passageiro, tipo os pensamentos que sopram na mente de vez em quando.
Que nem a lágrima que escorre no rosto.
Pois o sentimento, esse sim, é eterno. 

Ê vida, que voa!

Para sempre te amarei,
Wanderley Antônio de Menezes Fróis