Cola cum Fróis

Escrevo pela necessidade de me livrar das palavras | @_dudufrois

terça-feira, 29 de março de 2016

A baga que some

Ele queria parar pra fumar o ultimo rapé que ainda lhe restava. Pudera, viajava desde as três da tarde num sol destes que se dá em domingo - daqueles que são feriado religioso.

Já eram dez. Já tinha lua. E o corpo dele pedia arrego de tanta curva, serra e paisagem de pasto. O ambiente do ônibus lhe causava tédio. Daí foi que ele desceu, de milhão, logo que fizeram uma parada.

Além do chá, ele catou uma sacola de feira com banana, manga e uma faquinha pra descascar. Pra desbaratinar ele deu a volta no barato. Foi parar onde, de noite, os motoristas encostam seus caminhões. E por ali mesmo, dum pico que desse de cara pra lua e pro cruzeiro do sul, se abojou e comeu e fumou. 

A noite era bela, e foi por isso que o mané se empolgou nos devaneios enquanto contemplava o céu estrelado, daqueles que se tem somente na roça. Sua meia-horinha de parada passou depressa, e ele só foi perceber ao olhar pro celular; ato que logo virou uma espécie de tática pros guardinhas do posto não ganharem enquanto ele apagava o incenso.

Era ganja na mão esquerda e navalha na direita. Os mandados foram reto e ele muqueou o verde no tênis preto. Nem laceou o boot. Meteu, com o maior cuidado, o canivete no bolso do lado. Fez que ia sair. Parou.

a famosa ponta-firme

Voltou a olhar o céu. E, antes que viessem lhe perguntar algo, meteu foi o pé. Saiu tropeçando sem olhar pra trás. Nem chegou a ver os seguranças rirem de um sujeito tão desengonçado assim.

Passando em frente ao banheiro, ajeitou a bombeta, cheirou a mão e resolveu dar um tempo por ali. Foi direto pro box, lá no fundo. Abaixou a tampa com violência e botou o pé por cima. Tirou o sapato e nada daquela baga que apagara há pouco. Tirou o outro. Apalpou as meias com pressa e saiu emputecido, com a faca na mão, outra vez sem amarrar o cadarso.

Teve ainda a pachorra de retroceder pelo caminho feito, olhando pro piso cinza do estacionamento, atrás da sagrada ponta. Desistiu, e quando se aproximou do ônibus foi logo apontado pelo motorista que não ficaria mais no volante:

- Era esse aqui ó. De boné!

Ele sorriu, estampando uma mistura de tristeza e sarcasmo nos dentes. Escondeu a faca no bolso. Não antes do novo motorista esboçar uma careta. Entrou e respirou fundo. Se ele havia perdido um fino, eles, colegas de viagem, perdiam tempo. E tempo pra eles é dinheiro.

A velhinha do banco ao lado, logo percebeu a pala que ele deu e perguntou da demora. Ele, guardando a faca na bolsa, disse, subindo o tom, que estava chupando manga. "Muito melhor que esses sanduíche aí'. Os dois riram.

Nosso viajante se revoltou com os olhares, mas o bom humor da senhora curiosa lhe tranquilizou. A paisagem foi se esverdeando, sob o mesmo fundo negro e enluarado. Aos poucos a onda ia voltando. O sono vinha, enfim, chegando.

Aliás, dizem que manga consumida com maconha proporciona boas ondas. Claro, depende do mar. Do vento. Do clima. E o tempo estava ótimo! A lua é quem encheu a maré.

E nem era mais domingo quando, já pescando no banco, é que ele foi se ajeitar. Tirou o boné, inclinou o acento e deixou cair o par de tênis no chão...

Tirou, também, as meias, alguns quilômetros adiante. Ele viu que caiu algo de dentro delas. Logo sacou que era a baga desaparecida. Não conseguiu conter o riso. Muito menos a propagação da pala ao olfato alheio.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Cachaça não é água, não!

Em Minas Gerais, como se sabe, o negócio é queijo e cachaça! Comuns, além das vaquinhas, são os alambiques de pinga artesanal espalhados dentre as infindáveis subidas e descidas. Lá mesmo a cana é plantada, cortada, moída, decantada, fermentada, destilada, armazenada e, claro, degustada. E foi num sítio desses que Seu Zé, o Minerim, foi de carona com um casal de amigos tomar uma.

O sítio na verdade eram duas casinhas de tijolo baiano, com uma horta no meio, e um pequeno canavial. A propriedade era dum tio de Minerim, o Cumpadre. Desses parentes que a gente só visita em feriado. Eles foram num fusca amarelo que era "mais brabo que tudo quanto essas caranga nova que tão rodando por aí". Claro que o Cortês, dono e apaixonado pelo seu fusca, ia puxar a sardinha pro carro. No caminho, entre as estradinhas de terra batida, ele veio contando as aventuras que passaram juntos. Se caísse um pé dágua, era só revestir as rodas com correntes e engatar a primeira que ele ia que só!

Mas o tempo tava firme. O sol brilhava tranquilo no azul céu de Minas. Azul feito o oceano visto de cima. É o azulzinho do mar que faltava aos mineiros.

Os três chegaram por volta das dez da manhã, sendo recebidos com um baita café da manhã preparado mulher do Cumpadre, a Cumadre. Os dois filhos do casal que recebia os visitantes brincavam na terra enquanto eles comiam. Mal terminaram a refeição e Cortês já foi logo querendo provar a tal pinga do lugar. O menino mais velho, todo lambuzado de terra vermelha sorriu e gritou, carregando no sotaque:

- Cuidado, seu moço. Quem daqui bebe com muita sede não se sacia, não, sô.

Eles riram. Menos Cortês, que insistia em conhecer a aguardente. A Cumadre lembrou ao rapaz que ele estava no volante...

- Esse aí dirige até no piloto automático, dona.

Eles riram outra vez. Dessa vez Cortês fez questão de rir de própria piada. O Cumpadre não perdeu tempo e logo serviu às visitas a famosa pinga. E a reação não podia ser outra:

- Uai! Mas isso é melhor que uísque.


Todos repetiram a dose. O Cumpadre quis mostrar a pequena fazenda. Minerim sugeriu para que levasse uma garrafa de cachaça junto ao passeio. Então logo surgiu nas mãos da Cumadre uma pingazinha de banana.

- Docinha!

Foram curtos passos e longos goles. A segunda garrafa se foi e o efeito do álcool era visível nos olhos dos visitantes. Cortês e Minerim até dispensaram o almoço. Queriam experimentar a caninha com sabor de café. O Cumpadre até ameaçou cortar o barato, mas logo cedeu. Não sem antes avisar:

- Essa daí tem que se apreciar, sô. É de poquim em poquim que si acaba. Qui nem a bríbia.

A dupla de amigos, que não era lá muito cristã, não deu ouvidos e continuou a bebericar. Até que o sol fosse embora. E a lua subisse, também com seu brilho. O papo seguiu. Falaram de política, que "tinha que surgir logo outro JK em Brasília". De futebol, que "esse ano a Libertadores era do Galo". E até rolou uma modinha sertaneja no violão da Cumadre. Lógico, regado à aguardente dali da terra.

Na hora de ir embora os dois parceiros trançaram as pernas e trombaram um no outro. Quase foram ao chão. Só não caíram porque um segurou no outro. Agradeceram e se despediram dos donos do sítio. Quiseram até comprar uma nova garrafa. Caíram na gargalhada e no soluço. Só pararam quando Cortês percebeu que havia perdido a chave do carro. Sua mulher havia guardado na bolsa e o reprimiu:

- Nesse estado o senhor não pega no volante!

- Mas eu tenho qui trabaiá amanhã, muié.

- Então o Minerim guia.

Cortês respirou fundo e olhou nos olhos do amigo de longa data:

- Você leva meu possante?

Minerim respondeu de imediato balançando a cabeça pra cima e pra baixo. Só parou quando recebeu as chaves.

Eles entraram no fusca, saíram do sítio e a maior preocupação era acertar o caminho. Já tava bem escuro e os buracos não ajudavam. Mas logo eles caíram na rodovia e puderam andar melhor. Minerim enfim pôde botar a terceira, acelerar, ultrapassar um caminhão de madeira. Meteu a quarta, diminuiu na curva, mas como era descida suave, voltou a acelerar fundo. Na hora de por a quinta o carro engasgou, ele foi olhar pro câmbio e não viu a curva seguinte. Passou reto e só parou na árvore, do outro lado da pista. O carro, que vinha em alta velocidade, ainda virou de lado antes de parar. Amassou por inteiro. Tiveram que quebrar os vidros pra sair de lá de dentro. Mas todos saíram bem.

Com um corte na testa, ainda bastante zonzo da batida e da pinga, Cortês agachou-se e voltou a olhar fundo nos olhos do amigo:

- Porra, você não disse que sabia levar???

Minerim, que estava deitado no chão, vendo o mundo todo girar, ouviu a voz do companheiro e respondeu sorrindo:

- Eu disse que ia levar, sô. Não disse que ia chegar.






quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Pra aliviar a ansiedade...

Se não fosse essa postagem nem pareceria que estamos no auge de cada ano, nos dias em que as pessoas cantarolam nos ônibus, trocam sorrisos nas calçadas, beijos na rua... É SEMANA DE CARNAVAL! E como esse ano vou, pela primeira vez em quase duas décadas de história, passar a festa em terras cariocas, vim deixar essa fita aqui no clima. Não vou jogar confete, nem spray de espuma. Vou jogar samba.

Ou melhor, a Estácio de Sá é quem vai nos jogar samba, domingo, às nove da noite, independente de qualquer canal de televisão. Samba e axé, que andam juntos. São Jorge é o tema. Empunhando a lança do santo guerreiro. A letra é a declaração do devoto para o padroeiro, em primeira pessoa. Só que em conjunto, soa-se coletivo. É a fé, sendo um bagulho extremamente pessoal, transformada numa música de massa, e, o melhor, sem aquele lenga lenga gospel. Uma energia que eu só vejo no samba. Ele conta também a história de Jorge, e já cai num refrão que traz a primeira parte direto da oração, bem forte: estou vestido com as armas de Jorge, meus inimigos não vão me alcançar. Aí o samba volta crescente, fala da criança e da lua, e fecha com comida e batuque, pra escola fazer da avenida seu altar. Como a melodia é gostosa! E a rapaziada da Medalha de Ouro tem mérito nisso. É cada breque difícil que os cara tá mandando, hein... Não é o samba do ano porque os poetas de carnaval capricharam nas composições. Tenho certeza que a escola vai segurar as ponta de abrir o carnaval. Segurar num desfile guerreiro, botem fé.

Daí a União da Ilha do Governador, que deve ser bela como cá, a ilha do presidente; encarna-se no Rio de Janeiro para celebrar as olimpíadas deste ano. E agora com a volta da batida antiga de caixa, bem swingada e gostosa, que até lembrei do meu Camisa. O samba é uma exaltação da cidade maravilhosa para com ela mesma. Uma auto-celebração olímpica, recheada de enaltecimento às belezas naturais do rio, alá antigos carnavais. Pois é, chega mais perto e sente o meu calor. Cristo Redentor alia-se a Zeus, na terra onde o sol é mais dourado. É realmente uma primeira parte bonita, mas o refrão, meio vago, dá uma quebrada no samba que vinha legal. Na segunda parte se fala dos cariocas, dos jogos e, claro, do samba; a melodia também não mantém a mesma pegada do começo. Aí o refrão, de cinco versos, prolonga o samba ainda mais. O jeito vai ser mesmo a Baterilha firmar o desfile na ginga, no batuque e no compasso. Confesso que é uma das faixas do cd desse ano que menos rodou aqui. Mas sempre aguardo a passagem da Ilha, afinal ela não é xodó dos carioca à toa, né. Aquele abraço!

E de Nilópolis, baixada fluminense, é que vem a campeã Beija-Flor. De Nilópolis à Nova Lima, cidade mineira, que entra no enredo da escola esse ano. O Marquês de Sapucaí, nascido lá, e que dá nome a passarela do samba mais famosa do mundo, será homenageado também. A ideia é voltar àquele desfile de carnaval que fala dos tempos de colônia, ou seja, que fala de história. E como o marquês, de fato, encadeia bastante assunto, emoldurando a história, a azul e branca traz um belo samba. No estilo melódico do ano passado, só que com uma levada mais cadenciada. A vida do rapaz então é contada em seus por menores possíveis na primeira parte, para cair num empolgante refrão de exaltação à liberdade. Com o perdão da comparação, mas não como era aquele puta refrão do ano passado. Aí, diz-se que se trata de um homem de real valor, seja lá o que isso signifique, né. Em seguida é feita a conexão com o sambódramo, mas confesso que ainda não compreendi o herdeiro verdadeiro de Ciata, nossa mãe do samba. Na segunda passagem, com A bateria, o samba melhora bastante. Na alegria ou na dor, estou curioso para ver uma Beija-Flor barroca.

De Minas, a gente vai pra SP, colar em Santos, lá no Itororó, beber água. Uma das cidades mais antigas do Brasil vai ser homenageada pela Acadêmicos do Grande Rio. Nesse mar de alegria, o samba, que agora virou propaganda da tele-sena, é naquele modelinho de enredo sobre cidade. E também passa pela história do país, já que o porto de lá ainda é o principal. A primeira parte tem um jogo bonito com a melodia, num falso refrão. E a bateria Invocada ajuda bastante no astral da música, que já é pra cima. Nessa labuta tem aroma de café! - que, aliás, estou saboreando nessa exata tarde nublada. Antes ainda do refrão, uma quebra levanta o clima e, ao mesmo tempo, já chama o bis de dois versos. É saboroso, todo mundo botou fé! Aliás, pode embarcar que o apito do bonde tocou! Pode embarcar que o progresso não pode parar! Na moral, esse breque ali é fera. Aí a batucada volta e a letra já vem falando do Santos Futebol Clube. E dos craques do celeiro. Olé's à parte, o samba se perde por aí. Achei-o meio comprimido, e ele pouco diz. Santos tem muito mais pra se contar. É outra faixa que eu não costumo repetir. Espero que a cidade do meu time do coração seja bem representada por Caxias na avenida, assim como o Amazonas foi dez anos atrás. Santos, maravilha de lugar!

Pernambuco também fora bem representado, esses tempos mesmo, mas com a Mocidade Independente, que hoje canta o Brasil. Louco. Apaixonado. É um enredo de pegada literária que evoca Cervantes ao nosso país. Os moinhos agora são as dificuldades diárias de cada brasileiro. Vai na fé! Música e história também estão inclusos no pacote quixotesco. Um carnaval, digamos que, deveras modernista. Gostei da proposta, achei ousada, assim como a do ano passado. Essa, porém, parece ser muito mais carnavalesca do que o último carnaval da Padre Miguel. Não há de faltar bravura. E a batucada aproveita o refrão do meio pra tirar onda. Gostei daquele breque do agogô. Aliás, Não Existe Mais Quente, que introdução de peso, hein! Vai na fé, meu bom cangaceiro. O Paulo Barros até saiu fora, mas deixou aquele ar de curiosidade pairando ali pela região, numa ofegante epidemia que se chama carnaval. Enfim, sub-celebridades à parte, tenho uma boa expectativa sobre a escola da Zona Oesssste. Há tempos a gente espera a volta da boa e velha Mocidade. E com o Louzada atrás do lápis já temos um bom começo. É hora da estrela que sempre vai brilhar.

Aí, quase de manhã já, a Unidos da Tijuca festeja o solo sagrado em oração. Quase outra "festa no arraiá", possivelmente dos mesmos patrocinadores daquele enredo da Vila, a escola do Borel canta o interior brasileiro. Simplesmente o melhor samba de domingo. A letra é muito bem construída e a linha melódica é toda traçada em cima de rimas estratégicas. A batucada acompanha o alto nível, desde lá da introdução, com cavaco e tamborim, até as bossas da segunda passagem. Séeeloko, dá até vontade de pegar a baqueta e o tamborim aqui. Brota o suor que escorre da enxada, é um dos versos mais bonitos do carnaval. Faz tempo que eu não via a Tijuca com um puta samba. O refrão do meio é extenso, mas nem um pouco cansativo, porque é bem rimado. Já a segunda parte do samba não mantém a mesma pegada do começo, principalmente quando chega no tal oásis de conhecimento. Achei só que faltou uma referência a reforma agrária, pois, convenhamos, é foda quatro mil pessoas festejarem um solo sagrado que tem meia dúzia de donos, assistindo tudo ali de pertinho, no camarote da Sapucaí. Mas o dia vai raiar, e o povo há de cantar feliz.

E assim que esse dia anoitecer a Unidos de Vila Isabel já estará preparada para cantarolar, me emocionar, estando ali na avenida para cantar o político pernambucano Miguel Arraes, o Pai Arraia. E o samba é bom... ahhhh, é tão bom! Martinho, André Diniz, Mart'nália, Arlindo Cruz e Leonal mandaram muito bem. É outra concepção de samba, com três partes, três refrões, e o melhor, sem ficar chato. Longe disso. O samba começa transbordando poesia por olhos rasos d'água. Fala da seca, do sol, e dos carcarás, que voltarão ainda nesse carnaval. Compara o equilíbrio de uma vida sofrida com a estrutura das casinhas de palafita lá do nordeste. E quer um refrão melhor do que dignidade e amor, meu amigo? Dignidade e Amor. É lindo de se ouvir. Aí o samba volta falando de justiça, ideais e esperança. Afinal, liberdade se conquista com educação. Em seguida, sobe o refrão, que também é curtinho, e dá de tirar aquela onda na avenida. Mas isso é só preparação pros versos posteriores que dão aquela levantada na escola de gente aguerrida que defende a tradição do seu lugar. Pra enfim explodir dançando o frevo e a ciranda, no refrão principal. Um samba redondíssimo lá da terra de Noel. Um movimento de cultura popular!

Popular, também, é a malandragem carioca. Salve a malandragem. Salve o povo de fé, me dê licença pra falar desse samba lindo, dos Acadêmicos do Salgueiro. Marcelo Motta, Fred Camacho, Guinga, Getúlio Coelho, Ricardo Fernandes e Francisco Aquino podem lá não ter aqueles nomes engraçados de compositor, mas seguraram a bronca e fizerem um dos grandes sambas deste carnaval. No palco, sob as estrelas, o malandro protagoniza sua ópera na Sapucaí. Com influência lá da peça do Chico Buarque é que o enredo foi montado, mas os atores desse espetáculo são cria lá do morro do Salgueiro. Mais que um projeto social, esse enredo é uma autoafirmação cultural duma classe que sempre foi mal vista, marginalizada; e agora é alvo de flash global. Ou será que vão boicotar a transmissão mesmo? Com ou sem tevê ao vivo do sambódramo o mestre sala das madrugadas vai cortejar sua porta bandeira, a lua. Pra vocês verem o nível de tamanha malandragem, a introdução bonita que a escola fez no cd é sincopada por caixinhas de fósforo. O samba em si tem versos curtos e bem rimados, isso facilita bastante na memorização e, quando menos se espera, se está cantarolando por aí. A Furiosa bateria tá fazendo sua parte de malandro, batuqueiro, segurando um dos melhores ritmos do carnaval. Dos breques ao desenho de tamborim. Me deixo levar! Malandro não diz muita coisa antes do carnaval. Apenas confesso que vou pro RJ pra ver esse samba. E olha que na final tinham outros dois sambas de qualidade. Talvez seja o vento soprando a favor do Andaraí. O couro vai comer.

Do malandro, surge o palhaço. Não com menos malandragem. Mas com mais alegria. Em cena, a arte! E se o Salgueiro se inspirou no Chico, a São Clemente recorda de Zé Ketti para colocar mais de mil palhaços na Sapucaí. A escola vem se mantendo no Grupo Especial há algum tempo, sempre trazendo bons enredos. Também, com Rosa Magalhães na pesquisa, o carnaval só tende a dar certo. O samba que ficou devendo um tantinho. Irônico, não? Num samba sobre palhaços faltar empolgação. Não que seja um samba ruim. Longe disso. Mas a irreverência não funcionou muito bem. Talvez faltasse um bocado de poesia ao homenagear o palhaço. Muito oba-oba pode cansar na avenida. Espero, sinceramente, que seja o melhor desfile da escola da Zona Sul. Potencial pra isso eu sei que tem. Só que, numa noite cujos sambas são lindíssimos, a São Clemente pode acabar ficando pra trás. Que confusão, meu deus do céu! - Deixa a escola desfilar primeiro, rapá! E desfilar linda, pra mostrar pra esse palhaço aqui que tudo o que disse era doce ilusão, deixa. Pode não ser o melhor samba, mas que a escola tem um dos melhores enredos do carnaval, ah tem sim senhor!

E por falar em enredo firmeza, quem vai pedir passagem agora é a águia de Madureira. Ela vai voar longe, altaneira, para viajar, rumo ao infinito. Curioso, né? A Portela começa sua odisséia nas asas da mitologia, toda trabalhada na arquitetura grega. Seu destino, é sem fim. Cruzar o azul que é tudo pra mim. O samba tem uma primeira parte curta e bela, como uma daquelas flores que cabem inteiras na palma da mão. Toda azul. Aí um falso refrão traz a melodia pro povo cantar junto. Ô leva eu, me leva! Dá vontade de pegar carona com a águia. Afinal, sou livre, aonde sonhar eu vou. E o samba vai, ao infinito, sentir lugares tão bonitos, em terras mais distantes me aventurar, sem saber se um dia vou voltar. Ou seja, resumindo a vida de todo viajante porra louca, sem rumo, a vagar o mundão por aí a fora. Chega-se ao refrão do meio, curtinho e simples; para que aí, o samba, que é lindo, se tornar ainda mais do que isso. Abre a janela! Abre, pra ver Samir Trindade, Wanderley Monteiro, Elson Ramires, Lopita 77, Dimenor e Edmar Jr; que acertaram em cheio ao trazer uma levada quase que de partido alto pra essa segunda parte. Samir, aliás, que é autor do samba campeão do carnaval passado, aquele sobre Guiné, da Beija-Flor. A maré tá boa né, rapaz. Ouvir a escola cantando essa parte que fala do ouro, do brilho e, principalmente, do professor Paulo, chega a encher o olhos. Ah, a Portela voltou! E do outro lado alguém pode ver esse amor. Amor a esse samba, que é o próprio mapa da mina, pra achar tesouro, lá na quarta-feira da semana que vem. E, claro, encerra-se a obra em reverência ao samba. A Tabajara do samba também faz seu show a parte. Wantuir e Gilsinho acompanharam-na legal. Abram alas! Afinal, eu sou a águia. Falem de mim quem quiser! Mas é melhor respeitar a Portela, rapá.

Logo após o som do berrante, será a vez da Imperatriz Leopoldinense fazer seu carnaval em clima sertanejo. É outra agremiação que leva o interior do país pra avenida. Pudera, verde é minha raiz. O samba que é tido por muitos como o melhor deste carnaval tem realmente uma construção muito especial. Recheado de poesia ele remonta à vida rural. O galo canta, anuncia um novo dia. Minhas lembranças, marejadas de saudade, trazem à memória o canto dos pássaros e os girassóis da letra. Uma baita ajuda pra imaginação do carnavalesco. Brota até um desejo de se conhecer a Serra Dourada de Goiás. Sou o som do serrado brejeiro! E se um falso refrão já aparecera antes, em outras duas escolas, aqui ele é extremamente bem elaborado, com cinco versos bem rimados, em que a melodia simplesmente baila nas duas estrofes. Prato cheio pra batucada Swing da Leopoldina. Sou matuta, ribeira, caipira. Ao mesmo tempo o samba exalta, em primeira pessoa, o homem do campo, de um pedaço feliz do Brasil. A segunda parte cai já nas festas do interior, mostrando que um enredo sobre Zezé de Camargo e Luciano é muito rico, sim. Fala, inclusive, da trajetória dos dois. E justo nessa parte do samba, no cd do carnaval, a dupla sertaneja começa a cantar os até que chegue o segundo falso refrão: é o amor! Os compositores - Zé Katimba, Adriano Ganso, Jorge do Finge, Moisés Santiago e Aldir Sena - aí, fizeram uma brincadeira com o maior sucesso da dupla. Misturaram à letra um sucesso de rádio dos anos 90, tempos áureos da escola de Ramos (e da dupla goiana), e ainda deixaram a moral do Gresil lá em cima. Claro que sertanejo dá samba bom! A X-9 Paulistana já tinha mostrado isso na década passada. Minha escola na avenida, a paixão da minha vida. E que samba... Pois, sou brasileiro, caipira-pirapora!

Encerrando o carnaval, a última agremiação a ser avaliada, quem vai deixar o gostinho de quero mais na passarela, o último nome a ser lido na apuração a cada quesito... Chegou a garra. Chegou a emoção. Chegou a escola de samba mais querida do planeta. Valeu, Luizito, o samba enredo da Estação Primeira de Mangueira esse ano é lindo, e tenho certeza que cairia perfeitamente na tua voz. A escola fez uma bela homenagem a ele na gravação do cd. E homenageia agora, na avenida, a menina dos olhos de Oyá, Maria Bethânia. Não mexe com ela não, mano. Pois é no dengo da baiana, meu sinhô, que a Mangueira vai passar. Com o axé lá da Bahia é que o samba começa, todo rimadinho. E vai. É Oyá e Oxalá. Bonfim e Maria. Alemão do Cavaco, Almir, Cadu, Lacy de Mangueira, Paulinho Bandolim e Renan Brandão fizeram uma das obras mais belas deste carnaval 2016. Vou no toque do tambor, ô ô. Naquela tradicional caixa rufada, aquela marcação ímpar. Coé cara, vai ter que respeitar meu tamborim! Por que a batucada da escola já mostrou que tá que tá. Deixa o samba me levar... saravá! Daí na volta do samba, depois da virada, quando voa (mais um) carcará, a melodia passa a se soltar. E o tamborim vem junto. No embalo do xirê. Fizeram um puta breque; simples e funcional. Firmo na palma, no pandeiro e na viola! Tudo realmente conspirando pra verde e rosa voltar a fazer um grande carnaval. Vento soprando a favor? Bom, pelo menos esse ano a torre da Sapucaí foi retirada. Explode Coração.

Se bateu curiosidade, os sambas você acha facinho aí no Youtube. Mas bão memo é ouvir ao vivão, junto com aquela batucada!

Sonhei que nessa(s) noite(s) de magia tudo quanto é treta ficava pra trás da linha amarela. Que na passarela branca nada fosse ilusão, mas que aquela realidade durava tanto quanto um sonho bom. Que, essa semana, a passarela seja nossa cama. Grandona e macia. Bora sujar esse lençol e curtir o carnaval aí gente!


sábado, 30 de janeiro de 2016

Um poço de sorte no ar

Meio desolado com os rumos da vida é que busquei me renovar na gélidas águas da cachoeira. A presença de um parceiro em espírito aventureiro aqui na baia influenciou bastante na disposição de caminhar até lá. E a gente foi, entrando em sintonia com o lugar, quanto mais a gente se aproximava do pico, menos barulho de carro no ouvido. Isso trouxe um clima tão tranquilo pra trilha, que logo no comecinho uma audaz borboleta azul parecia nos guiar pelo caminho de pedra e barro.

- Traz sorte, né?

Tentei, em vão, buscar em minha mente o momento que tinha ouvido essa associação esotérica. Talvez quando molequinho, quando diziam que eu era sortudo que só. Talvez eu só tivesse me desencontrado da borboleta azul. Mas agora ela estava ali, sumindo e reaparecendo, bailando dentre as árvores magras e carregadas de folhinhas. Alguns cipós num tom marrom seco ajudavam a compor o cenário daquele voô tranquilo.

imagem meramente provocativa

- Cuidado com a cobra aí!, falou um tiosão, só pra assustar o guri que se agarrava num cipó. Ele riu sozinho.

Essa brincadeira besta levou meus pensamentos. Me perguntei o que realmente eu estava fazendo ali. Vai que, sei lá, surge uma cobra de verdade. Vish, roubou minha brisa. Comecei até a andar mais devagar, como se reparasse minuciosamente nas pedras e folhas da caminhada. Pensava duas vezes antes de botar a mão num tronco.

E foi na segunda indagação interna, logo após a primeira e reflexiva vistoria, que eu brequei o movimento de apoio que ia fazendo num galho da trilha. Estava ali, camuflado. E olha que não era nenhum inseto malandro. Tinha ali, na bifurcação do galho maior em dois galhos de igual proporção, um baseado fechadinho, inteiro, ainda não aceso. Minha reação foi de tentar lembrar quando é que eu tinha sonhado com uma cena parecida. Acho que algumas vezes. Ou será que eu vi isso num filme doidão?

Guardei pra acender num momento especial. E foi já devidamente purificado, ainda com o corpo todo molhado, que a gente iniciou o ritual. A cachoeira tinha umas pedras mais entocadas, que guardavam a mesma energia da vista do poço, um Poção. Repleto de misticismo e tranquilidade, como a dança com a brisa que a borboleta azul voltou a protagonizar, agora girando por entre as grandes pedras do poço. Com uns tímidos raios de sol, os últimos do dia, o azul claro das asas dela se revestia de um dourado marinho. Ou melhor, ribeirinho. Direto da Cachoeira do Poção, aqui na Ilha da Magia.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Das adversidades que lhe fazem enxergar


"A minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas pra mim: silêncio e solidão."
Cecília Meirelles



E nasceu uma criança. Outra dessas aí que nascem aos montes todos os dias. Nasceu com saúde, vigor e muito escândalo. Pinta de gordinha. Talvez não estivesse lá se sentindo muito a vontade quando nasceu. E assim, sem muita vontade, é que ela foi crescendo. Do colo quente ao chão frio. Do leite materno ao Tyrol gelado. Dos pacotes de Pamper´s às roupinhas de marcas em promoção. Sem qualquer escolha, ela crescia e descobria um mundo novo.

Quando a menina saiu pra rua sozinha pela primeira vez, se sentiu livre como nunca. Se viu na pele do seu cachorrinho de estimação quando escapava pelo vão do portão e despontava a correr chacoalhando os pelos, pra cima e pra baixo. Queria ser grande que nem os outros. Queria andar pra lá e pra cá, sem rumo, tal qual os adultos. Na rua a guria ficava atenta a todo tipo de gente que desse na vista. Observava seus passos. Ouvia suas frases, mesmo que não compreendesse a maioria delas. Acompanhava seus atos. No fundo, ela tentava desvendar o pensamento alheio. Ainda não entendia muito bem esse negócio de pessoas.

Já caminhando pelo bairro com certa autonomia, a moça começava agora a guardar rostos e nomes. E alguns trejeitos também. Atenta que só, estava lá quando viu o time da várzea comemorar a vitória ali no campinho do bairro. E também viu quando rolou uma baita pagodeira no bar do Pinguim. Mas a moleca gostava mesmo era de ver gente indo e vindo. Chegando e saindo. De mo-vi-men-to! Não desgrudava os olhinhos da avenida principal. Queria até conhecer a tal da rodoviária, que vira apenas pela telinha da televisão, fascinada.

Como a quebrada da garota era mesmo um tanto movimentada; ela, como toda boa criança, tomara gosto pela rua. E foi na rua que presenciou as sonoras discussões da D. Beti com Seu Célio. Saía até garrafa quebrada. Viu também as frequentes brigas entre moleques mais velhos, assim que acabava o futebol na quadrinha. Já na calçada, num canto escuro, enquanto trepava na árvore, ela viu dois homens grandes e maus romperem o silêncio da noite, vindos em uma moto barulhenta, ainda de capacete, atirarem no primo do Juquinha. E da mureta de sua casa, assustada, a moçoila assistiu quando levaram a bicicleta que seu pai ganhara no bingo, sem ao menos poder correr atrás.

...

A pequena até parou de brincar na rua durante uns dias. Só que não aguentou. Mesmo com tanta coisa errada, embora houvesse quem discordasse disso, ela sabia que a rua teu espaço também. E saiu fora. Se jogou pra brincar na ruas do mundão de novo. Mas agora ela não ia ser só uma menininha. Ela não via mais tudo com a inocência e o brilho no olhar de antes. Não. A jovem olhava a cada um com enorme desconfiança. Olhava nos olhos, sem medo. Quem não a conhecia dizia logo que era puro desprezo, arrogância de gentinha mimada.

Ao contrário dos outros, tinha pé atrás com quem andasse bem vestido, engravatado. Questionava professor, inspetor e diretor; sem medo. Muito sorriso no rosto, pra ela, não tinha erro, era falsidade. Até do irmãozinho mais novo ela desacreditava. E olha que ele não tinha nem oito aninhos. Segundo ela, o moleque aprendera a mentir com a televisão ligada. A tagarela, agora, muito mais ouvia do que abria a boca. Ela não duvidava do que um ser humano pode fazer.

E assim, ao invés de uma visão lustrosa e perfeita da vida, ela passou a enxergar mal. Propositalmente mal. Passou a ver só o feio, o sujo, o marginalizado. Passou a gostar de ver o que ninguém gosta, afinal não se contentava em falar por falar. Em rir por rir. Em olhar só por olhar. Era como se a guria tivesse dificuldades de admirar o que é belo no mundão.

Solitária, a rapariga se declarava contraditória o suficiente para procurar defeitos nos outros. Só que os outros, não. Viam nela um poço de ruindade. Uma mini Geni, no auge de uma desinocência rebelde. Desconfiavam da menina curiosa, inconveniente, que não sabia amar. Não que ela não tivesse amigos. Até juntava bastante gente ao seu redor, principalmente na rua. Só que no fundo, ela corria só. Firme, e só. Conforme se deparava com tal rejeição, tal maldade, sua visão ia captando cada vez mais as contradições de uma rua falsa e desigual. Sua visão agora era turva. Absolutamente rabiscada. E isso a amadureceu de vez. Pra ela, o inferno sempre fora aqui.

...

Ela era, então, pequena só no tamanho, porque já conhecia bem onde vivia. Atitude de gente maior. Cara de mau e um olhar, simultaneamente, sereno e intimidador. Sabia bem o que aconteceu. E tinha ideia do que estava acontecendo. Essa visão comprometida é que lhe deu esse tom cético. Tinha plena noção inclusive de que, acontecesse o que acontecer, pouca coisa ia mudar. A donzela tinha era dificuldades em ver o superficial, o que as pessoas viam junto a ela. Sobre ela. E assim, ela... Ela passou a enxergar além de tudo isso. Com esforço, botou profundidade no olhar. Como se visse até mais longe, dialogasse com as estrelas.

Por viver no mundo da lua, sua rua passou a ser a Via Láctea. E assim ela seguiu crescendo. Não no tamanho, não na ganância, muito menos na vaidade. Cresceu apenas na idade, porque sua alma, inquieta que só, sempre será de moleca. Observadora silenciosa, continuou se misturando com os outros, de visão perfeitamente normal. Se camuflando na multidão. Óculos, pra ela, não adiantavam. A não ser os escuros, em que sentia-se na calada da noite em pleno fulgor da luz solar. Não que isso concertasse sua visão pessimista de um mundo péssimo. Era apenas mais discreta.

A jovem só queria passar despercebido. Enxergava distante, pensava longe... Passou a escrever poesias, sem sequer tornar-se poetiza.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Rolê no centrão de Florianóplix

Ainda não devidamente enraizado mas já a vontade para falar de lugar, narrei minhas impressões cá nestas terras manezinhas. Não fui só, junto a mim estavam também outros estudiosos.

Tendo a escadaria da grandiosa Catedral Metropolitana de Florianópolis como ponto de encontro para a saída de campo duma disciplina que eu tô cursando, já voltei a mente pra influência histórica da religião católica sobre a formação das cidades brasileiras. Só que além de receber missas, casamentos e celebrações religiosas; e se tornar um ponto turístico, a catedral também virou uma espécie de marco social onde as pessoas se encontram, vão para o local para verem e serem vistas; marcam encontros, atos, protestos e até mesmo aulas de antropologia.

Catedral Metropolitana de Florinópolis 


Talvez pela grandiosidade da obra arquitetônica, as suas escadarias se tornaram referência geográfica da capital catarinense. Assim como a Praça XV, que se localiza logo em frente da igreja. Cenário da passagem apressada diária de milhares de pessoas, o local também é ocupado e, portanto, possui suas características particulares de público. Por lá é comum encontrar o espaço das barraquinhas de comida e artesanato, mais próximo à catedral; o espaço dos idosos que passam o dia jogando baralho e dominó, também próximos à igreja; o espaço dos moradores de rua, mais espalhados ao longo da praça, que se misturam com turistas e trabalhadores do centro que vão se refugiar ali; e os diversos tipos sociais que se encontram e se integram em meio ao centro histórico de uma cidade de quase meio milhão de habitantes. O espaço de cada um desses grupos sociais não é demarcado visualmente, mas habita o consciente coletivo de cada conhecedor do local.


antiga Casa de Câmara e Cadeia


Caminhando então pelos lados da Casa de Câmara e da Cadeia antiga, que hoje estão em reforma, a população vai se diversificando em cores e idades. Por se tratar de horário comercial, e aquela região abrigar muitos escritórios, o vai e vem de pedestres e carros é intenso pelas ruas estreitas. A localização dos chamados cursinhos pré-vestibular contribui para o fluxo. Porém, a vida ao longos dessas ruas dura conforme o horário comercial. Após o expediente a região vai ficando vazia, já que não existem grandes condomínios residenciais, e os prédios, mais antigos, não têm, em sua maioria, estacionamento e mais do que dez andares. O interessante é saber que uma ruela em especial da região ganha sobrevida à noite devido a concentração de bares: é a Travessa Ratclif. Ela atrai sobretudo jovens e pessoas que saíram do trabalho e vão para lá fazer o chamado “happy-hour”. Além disso, o local também é frequente palco cultural de sarais e apresentações regionais, dentre elas uma tradicional roda de samba da ilha.


Travessa Ratclif


Do outro lado da praça podemos notar com nitidez a diferença entre o passado histórico - e sua busca pela preservação - e a contemporaneidade. Nos prédios enxergamos antigas construções, com os traços da arquitetura europeia que colonizou a cidade. No entanto, nos mesmos prédios, na parte do solo, no qual é feito o contato direto com a população que por lá circula, vemos a apropriação atual do comércio de grandes franquias de lojas sobre o patrimônio histórico. Ou seja, num enquadramento distante, quase que panorâmico o centro da cidade aparece como que em sintonia com as raízes culturais de sua colonização. Entretanto, ao aproximar o olhar para a visão de um consumidor comum - seja ele morador ou turista - o que vemos não são mais elaboradas construções; e sim banners, anúncios, letreiros e placas de ofertas das diversas lojas ali instaladas.


o novo Mercado Público


Chegando ao agora reformado mercado público podemos nos dar conta de maneira mais clara da situação referida. Restaurado conforme sua construção original o mercado está pintado e com aparência nova. Adentrando o local, já podemos encontrar fast-foods, além de bares e restaurantes de maior requinte. Isso seleciona de tal forma o espaço dando a impressão de quase um shopping com ares coloniais. Ou seja, a estrutura mantida; só que o que é comercializado se altera de acordo com a demanda do mercado, desta vez o financeiro.


Rua Vidal Ramos


Shopping realmente é a rua Vidal Ramos, o chamado shopping a céu aberto. Tendência também importada de fora, ela se tornou uma espécie de Open Mall ao abrigar lojas com pouco mais requinte do que as outras, espalhadas pelo centro de Florianópolis. Seu público é ainda mais selecionado, de acordo com o preço do que é vendido. Toda largura da rua é pensada para que o consumo ocorra, que nem em shopping. Carros andam devagar numa passagem estreita. Pedestres circulam com folga e com ampla visão da entrada das lojas. A iluminação é mais elaborada, e banquinhos, como que em uma praça de alimentação, integram o detalhado cenário da Vidal.


feirinha do Largo da Alfândega


Voltando para o terminal de ônibus trombamos a feirinha da Alfândega, que é onde a circulação de pessoas é mais intensa, diversificamos ao máximo o nosso contato com as pessoas. Entregadores de panfletos são comuns. Seu conteúdo vai de puteiros à cursos de capacitação profissional. Abordagens por ali também são frequentes. Distrações, muitas vezes com o celular, em meio a aglomeração, podem interromper o intenso fluxo contínuo. Desde ambulantes até vendedores de chips das maiores operadoras de celular. O comércio de pequenos acessórios artesanais também é numeroso e é feito em sua maioria por estrangeiros.

De resto, é o andamento do contingente natural da cidade de Florianópolis. Engravatados quase que se esbarram em andarilhos. Estudantes bem-humorados contracenam com turistas curiosos... As estreitas ruas do centro histórico são barulhentas por isso. Conversas, pessoalmente e no celular, anúncios e o barulho de passos se entrelaçam, deixando quase que imperceptível o som dos carros não-tão distantes. Música as vezes faz parte do som ambiente, onde artistas vão fazer da calçada apertada de cada dia de trabalho o seu palco.

domingo, 30 de agosto de 2015

Procrastinai-vos!

Certa vez me perguntaram o que significava o verbo "procrastinar". Palavra de pronúncia difícil, de sonoridade forte, recheada por 'erres'... Não me lembro agora se tentei explica-la ou se a conjuguei; mas pude consolidar minha tese antiga de que esse verbo é singelamente importante em minha vida.

Afinal, o que é procrastinar senão adiar uma brisa. Sim, uma brisa que tivera outrora, talvez um lapso, e as vezes até um afazer importante que ainda está por fazer; mas que agora, neste exato momento, você não pode desenvolve-la. Força maior, né?

As vezes sua mente simplesmente não tá sintonizada ao cronograma super-apertado de cada dia. As vezes seu corpo é que não tá na disposição de se entregar a tamanha atividade. Procrastinemos, então, porra. Sem medo! Deixemos para depois, prum domingo chuvoso, sei lá. Talvez essa brisa nem tenha sido tão relevante assim...

Mas se for, teremos, enfim, maior tempo pra ela. Pode-se amadurece-la nas divagações e projeções. E, convenhamos, se for um brisa boa, ela vai voltar, quem sabe em hora ainda mais propícia.

Quem sabe ela até volta em tempos de super-lua!

sábado, 8 de agosto de 2015

Fui dar um rolê... e voltei

Acho que porque andava exausto da lúgubre rotina hospital-farmácia-cama que se estabelecera no último mês, passei a refletir sobre cada rolê que não fui, que gostaria de ter ido, ou que até fui, mas que faltara algo. Sensação de perda, sabe? De que talvez ande aproveitando mal a vida. E foi aí que eu disse sim! A Jesus? Não, aos rolês...

Rolê, ou rolé: gíria paulista, ou carioca, com pinta de estrangeirismo francês, de pelo menos umas três décadas; a expressão, comum entre os jovens, tem grande abrangência no cotidiano das pessoas que habitam o ambiente urbano. Podendo significar uma locomoção de longa distância ou duração, um passeio a dois, uma saída entre amigos, uma viagem solitária e até mesmo a combinação entre eles.

No meu caso, adicionou-se ao contexto o adjetivo "noturno". Aceitei de tudo. Do tranquilo show do Ira! ao show lotado de Fernando & Sorocaba. De barzinho gourmet, cheio de boy, a uma volta descompromissada na praça Roosevelt, cheia de morador de rua. Dum puteiro fedorento a cheirosa apresentação dos Racionais MC's. E por aí foi... sem restrições ou preconceitos. Assim estou faz umas dez luas, muito belas por sinal. A cara era não ficar uma noite sem fazer nada, já que eu estava de merecidíssimas férias, diga-se de passagem, e um bocado de saúde.

Não sei se por distração ou por puro espírito de aventura, eu e tantos outros mortais urbanos lançam-se diariamente, com o perdão da redundância, aos rolês nossos de cada dia. Talvez queiramos apenas vivenciar novas histórias, porque ninguém aguenta mais ouvir as velhas. Ou conhecer novas pessoas, porque os antigos amigos também fizeram novas amizades. Ou até mesmo conhecer novos lugares, onde o que quer que aconteça já é novo aos nossos olhos. Enfim, a chance de florescer um sorriso que valha o deslocamento é grande e o flerte com o imprevisível dá ao rolê um charme de filme noir.


Essaí tocou num dos rolê...

Não que o rolê seja só um refúgio do rodo cotidiano, uma distração momentânea e vazia. Mais que isso. É também uma forma de diálogo e reflexão com a rua, com a cidade, com as pessoas que delas fazem parte ou que por elas passam. E por que não uma reflexão consigo mesmo? Pra quem se sente preso ao passar o dia em casa, um jet é liberdade. O pião é mais do que necessário pra lembrar que a gente tá vivão. Ou seja, rolê é vida!

E mesmo que o rolê não saia como o planejado, que seja aquele famoso rolê errado, terá, no mínimo, como se retirar um aprendizado dali, senão acompanhado de um bom causo pra contar. Rolê perdido é só se você quiser, meu amigo, mesmo que robem tua brisa. E, a não ser que tenhas um precioso motivo, não, não era melhor ter ficado em casa.


"sai invejoso, dá uma arruda aí pá mim!"

Parafraseando o Emicida, que aliás lançou outro disco classe A agora, "jamais volte pra sua quebrada de mãos e mente vazias".





segunda-feira, 11 de maio de 2015

Um paulista vai a Ressacada

Empolgado com mais um título estadual do meu Peixe, eis que resolvo ir ver meu time jogar. Eram muitas coincidências que eu não podia deixar passar. A primeira é que a nossa estreia no campeonato brasileiro seria aqui em Florianópolis, na Ressacada, contra o Avaí. A segunda é que eu estava com o domingo livre de trabalhos ou outros rolês impeditivos. A terceira é que a chuva que ameaçava vir não veio. Não pensei muito. Botei a toca e fui.

Aprendi a chegar na Ressacada, de ônibus, é claro; e que afinal não fica muito longe. Só há um problema na locomoção: o acesso ao estádio. Ao que parece, todo jogo do Avaí é assim. Só há uma (pequena) via - leia-se rua - que liga o estádio e o aeroporto ao restante da ilha. E tudo pára. Apesar disso, cheguei lá, junto aos numerosos - e empolgados com a vitória no meio de semana - torcedores avaianos, sem maiores problemas. Mas, calma lá, se não tem algum contratempo na caminhada, eu não tô envolvido.

Dessa vez foi a tal da meia entrada. Levei a documentação toda que eu tinha em casa pra não pagar sessenta reais num mísero jogo de brasileirão. Carteirinha, atestado de matrícula, bilhete de estudante... E não é que recusaram? Fodeu. Eu só tinha trinta e tantos mangos. Não ia rolar comprar ali. Não havia nem uma alma boa querendo vender ingresso na porta também. O jogo não ia encher mesmo...

Aí, lembrei-me do cartão de crédito, que me serve quase apenas pra padaria e pro mercado de mês. Mas aqui é Florianópolis, jogadô! Não tem essa de vendedor de cerveja e churrasquinho na porta do estádio ter maquininha de cartão. Tá maluco, paulista? Não, só queria ver o jogo. Só queria não perder o domingo. E achei padaria, barzinho e mercearia pelas redondezas do estádio. Parecia que eu ia conseguir "sacar". Essas horas não tinha olhar feio de torcida organizada adversária prum rapaz de moletom alvinegro que me parasse. Eu ia ver aquele jogo, meu.

E não é que os manezinhos não quiseram fazer aquele esqueminha de passar uma breja por trinta e poucos pila no cartão e pegar o resto da grana no caixa. Nem aquele outro de pagar a conta alheia no cartão pro sujeito me entregar a quantia que eu preciso. Nada. A única solução em comum apontada por todos eles foi de ir caminhando até o aeroporto. Pelo menos me indicaram o caminho sem erro.

Como o nome sugere, aeroporto aparenta ser um local isolado, distante das casas ao entorno do estádio. Além disso, a cara que cada cidadão fazia quando eu perguntava se o trajeto era longo não era nem um pouco convidativa. Mas fazer o quê? Já estamos aqui, né. E fui, em meio às casinhas de quintal com gramado verdinho ao estilo do estádio. O ambiente era de interior. Conforme fui indo em frente, me esqueci que estava no meio duma capital brasileira. Casas simples. Pessoas simples. Alguns animais. O clima de proximidade contrastava com as ruas vazias, mesmo em dia de jogo, e com um grande campo, ainda mais verde, ali em frente.

Cheguei mesmo a me conformar que o aeroporto era longe. Até pensei se aquele jogo valia todo esse sacrifício. Se eu não iria perder o primeiro tempo. Em tantas coisas que eu podia fazer com sessenta reais. Eis que, de repente, quebrando todo bucolismo, passa um avião da Gol, gigantesco, em baixíssima velocidade por detrás do campo que ali estava. O campo na verdade já era o aeroporto. Facilmente confundido com uma fazenda, aquele lugar me motivou novamente a seguir em busca do dinheiro que me faltava.

Enfim cheguei ao caixa. Peguei uma cerveja no caminho pra aliviar a ida e encorajar a volta. Ou sei lá, talvez eu queria só um motivo pra beber. E fiz novamente a mesma trilha. Era realmente um pouco distante do estádio, mas não ao ponto de me fazer perder algo da partida. Pudera, cheguei um pouco mais cedo, talvez por não conhecer o ambiente. Comprei o ingresso com dor no bolso, e entrei. Opa, não, antes, latinha não pode, moço. Ah é, tem mais essa. Não se vende mais breja em jogo. Mas pera lá, quem patrocina o campeonato? Quem patrocina a emissora de tevê que transmite os jogos? Aliás, quem patrocina o próprio clube que está agora me proibindo de beber lá dentro? A vida é contraditória até no futebol, meu caro.


Nem Santos, Nem Avaí.


Foi um a um. Jogo feio. Jogo típico do brasileirão atual. Sem lances belos. Sem emoção. Sem vibração. Sem vontade. Dos dois lados. Nem parecia o mesmo time que jogara semana passada. Quem sabe eu peguei um dia ruim de futebol. Quem sabe o futebol não viva dias bons. Quem sabe o dia a dia do futebol não seja mais pra mim. Quem sabe quase setenta paus gastos com os amigos ou a família não desse outro rumo pra esse história de domingo. Daí eu não teria escrito esse texto, né. Quem sabe...